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A primavera de Francisco de Assis

Por Frei Leandro Costa Santos, ofm

Francisco Texto Fr LeandroChegamos ao mês em que a beleza da terra é posta diante de nossos olhos. Chegamos à primavera. A estação em que as árvores que perderam as folhas no inverno ganham nova folhagem,cresce a grama, surgem as flores, cantam os pássaros. A estação em que Deus, nas suas criaturas todas, revela sua sensibilidade.

É sensibilidade que gera sensibilidade. É momento de estesia. Não nos vem outra imagem da primavera, se não aquela de um colorido inigualável, de belezas impossíveis de serem copiadas pelas mãos humanas. Uma beleza que ainda não foi corrompida pela ação do homem. A bela e simples natureza que resiste frente a muitas ignorâncias de nós homens e mulheres da contemporaneidade. Essa beleza ainda é mais forte do que nossa fraqueza.

Fala-se de criaturas, e já me vem à mente São Francisco de Assis. Não há como olhar tanta beleza e não se lembrar de tal santo. Francisco foi o apaixonado pela expressão sensível de Deus. Parece que de mãos dadas a tal beleza da primavera vem São Francisco. “Duas belezas de um mesmo jardim.” Duas belezas que se misturam, que se perdem uma ao lado da outra.

A mesma beleza o mesmo perfume da primavera, que Deus um dia introduziu nas rosas, ele incutiu em São Francisco de Assis. Um perfume perene. Inconfundível, incomparável. Uma fragrância que se alastra, que se espalha por todos os quatro cantos da terra, que ainda é absorvido e assimilado por muitos.

Por mais que se tenha passado oitocentos anos da vida deste santo, há quem diga: “Francisco de Assis é um homem atual!” Talvez em meio a multidão surja um que venha a admitir que não o conheça. Talvez! “Francisco de Assis é um homem universal”. Independentemente do credo, Francisco é considerado como exemplo de busca por muitos que possuem por ele uma devota admiração.

A vida deste santo é tão incrível, que nos permitiria comentar muitos aspectos de sua original experiência de Deus. Contudo, voltemos atentamente nossa reflexão a um único aspecto da vida de Francisco, um aspecto que o fez transcender nesta vida: a virtude do enxergar, do perceber, do admirar, do ver.

Em Francisco o ver é conversão de vida: “[…] parecia-me sobremaneira ver leprosos, e o Senhor me conduziu entre eles, e fiz misericórdia com eles” (1Cel 17, 2). É assemelhar à imagem do homem crucificado (1 Cel 94, 1-7). Vendo as criaturas enxergou a manifestação das perfeições de Deus em todo o criado, que culmina, como explosão de exultação, no Cântico das Criaturas.  Ver, é prestar atenção para a imitação de Cristo: “Irmãos todos, prestemos atenção ao Bom Pastor que, para salvar suas ovelhas (cf. Jo 10, 11), suportou a paixão da cruz […]” (Ad 6, 1). E, assim, inumeráveis feitos e fatos da vida deste santo correspondem a virtude do ver.

O ver de São Francisco nos é de todo diferente. Diferente de nossa compreensão literal do que venha a ser o fato do enxergar fisicamente. Não um ver físico que geralmente compreendemos, mas um ver místico, que compreendeu Deus e suas criaturas. Este ver exterior tornou-se para Francisco realidade divina em seu interior. Francisco mudou-se por completo e de forma intensa. O interior mudado mudou em Francisco seu exterior. Interior e exteriormente tudo já era uma coisa só.

Este ver, entendido como perceber, enxergar com bastante nitidez, alimentou Francisco por toda a sua vida. É do ver que Francisco contemplava todas as coisas e por elas louvava. “O amor de Francisco não se baseia num simples romantismo ou sentimentalismo. É algo profundo que nasce em Deus e o conduz até Deus”. (Hartmann). Até mesmo o que fazia lembrar a cruz de nosso Senhor, era motivo para este santo recordar a paixão de Cristo.

Nos perguntamos neste momento: “O que realmente isso quer dizer para nossa real sociedade? O que Francisco nos fala?” O que nos vem de Francisco é um testemunho veraz, um exemplo claro e profético. Tudo isso por sua original e autêntica experiência. Uma testemunha que nos impele a olhar com este seu olhar. Francisco nos “faz ver” o que não percebemos. Só nos resta aceitar Francisco como prova de que isso é possível.

“Pousou, pois, sobre ele a mão do Senhor (cf. Ez 1, 3), e transformou-o a destra do Altíssimo (cf. Sl 76, 11), para que por meio dele [Francisco de Assis] fosse dada aos pecadores a confiança de renascerem para a graça, e ele se tornasse para todos exemplo de conversão a Deus (1Cel 2, 7).

Possível de sermos melhores, pois ele teve aqui na terra uma vida igual a nossa, mas, em tempos diferentes uma vida com as mesmas exigências. Antes de ser considerado santo, Francisco foi, Francisco Bernadone. Foi a partir de um discipulado, que Francisco passou a “viver bem a vida”.

Façamos, nós, esta experiência inédita e original! Com atitudes próprias, com paixão, com vontade real e distinta. De ver as coisas em Deus. De tornarmo-nos mais sensíveis às coisas de Deus. Concluo esta reflexão com algumas palavras de um livro (Cencini). “Uma condição, então, para sermos testemunhas em nosso tempo é aquela de fazer discernir (distinguir) sobre a vida, porque em tempos de constante mudança, é preciso ter criatividade, atenção sensível ao Espírito e às perguntas das pessoas”.

Uma passagem das tantas biografias de Francisco relata-nos:

 […] Quando fervia dentro dele a mais suave melodia do espírito […] De vez em quando, como vi com os [meus próprios] olhos, ele colhia do chão um pedaço de pau e, colocando-o sobre o ombro esquerdo, mantinha um pequeno arco curvado por um fio na mão direita, puxando-o sobre o pedaço de pau como sobre um violino e, apresentando para isso movimentos próprios, cantava em Frances [cânticos] sobre o Senhor (cf. Sl 12, 6) […] e este júbilo se convertia em compaixão para com a paixão de Cristo”. (2Cel 127, 1-5).

Desta passagem admiramos a consonância de Francisco com a vida em Cristo. Ele só fez música por ter experimentado o motivo de sua canção, o próprio Cristo, sua razão única.



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