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“A Quaresma nos lembra que somos criaturas, que não somos Deus”

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O Papa Francisco presidiu, na tarde da última quarta-feira (05), a procissão penitencial que partiu da Basílica de Santo Anselmo até a Basílica de Santa Sabina, no bairro Aventino, em Roma, onde celebrou a missa com a bênção e imposição das cinzas.

“Rasgai os vossos corações e não as vossas roupas.” “Com essas penetrantes palavras do profeta Joel, a liturgia nos introduz hoje na Quaresma, indicando na conversão do coração a característica deste tempo de graça”, frisou o Papa Francisco em sua homilia.

Segundo o Pontífice, “o apelo profético constitui um desafio para todos nós, sem exclusão, e nos recorda que a conversão não se traduz em formas exteriores ou em propósitos vagos, mas envolve e transforma toda a existência a partir do centro da pessoa, da consciência. Somos convidados a tomar um caminho no qual, desafiando a rotina, nos esforcemos para abrir os olhos e os ouvidos, mas, sobretudo, o coração, para irmos além do nosso quintal”.

“Abrir-se a Deus e aos irmãos. Vivemos num mundo sempre mais artificial, numa cultura do ‘fazer’, do ‘útil’, onde, sem nos darmos conta, excluímos Deus do nosso horizonte. A Quaresma nos chama a ‘despertar-nos’, a recordar-nos que somos criaturas, que não somos Deus”, sublinhou o Santo Padre.

Em relação aos outros corremos o risco de fechar-nos, de esquecê-los. Somente quando as dificuldades e os sofrimentos dos nossos irmãos nos interpelam, somente então podemos iniciar o nosso caminho de conversão rumo à Páscoa. “É um itinerário que compreende a cruz e a renúncia. O Evangelho de hoje indica os elementos deste caminho espiritual: a oração, o jejum e a esmola. Todos os três comportam a necessidade de não nos deixarmos dominar pelas coisas que parecem: o que conta não é a aparência; o valor da vida não depende da aprovação dos outros ou do sucesso, mas do que temos dentro”, frisou o Papa destacando o primeiro elemento: a oração.

“A oração é a força do cristão e de toda pessoa que crê. Na fraqueza e na fragilidade da nossa vida, podemos dirigir-nos a Deus com confiança de filhos e entrar em comunhão com Ele. Diante de tantas feridas que nos fazem mal e que nos poderiam endurecer o coração, somos chamados a mergulhar-nos no mar da oração, que é o mar do amor sem limites de Deus, para saborear a sua ternura. A Quaresma é tempo de oração, de uma oração mais intensa, mais assídua, capaz de assumir as necessidades dos irmãos, de interceder diante de Deus por tantas situações de pobreza e de sofrimento.”

O segundo elemento qualificador do caminho quaresmal é o jejum. “Devemos estar atentos a não praticar o jejum formal, ou que na verdade nos ‘sacia’ porque nos faz sentir em estado de justiça”, disse o Pontífice, que acrescentou:

“O jejum tem sentido se verdadeiramente atinge a nossa segurança, e também se dele se obtém um benefício para os outros, se nos ajuda a cultivar o estilo do Bom Samaritano, que se curva diante do irmão em dificuldade e cuida dele. O jejum comporta a escolha de uma vida sóbria, que não desperdiça, que não ‘descarta’. Jejuar ajuda-nos a treinar o coração à essencialidade e à partilha. É um sinal de tomada de consciência e de responsabilidade diante das injustiças, das arbitrariedades, especialmente em relação aos pobres e pequenos, e é sinal da confiança que recolocamos em Deus e em sua providência.”

O terceiro elemento é a esmola: ela indica a gratuidade, porque a esmola se dá a alguém de quem não se espera receber algo em troca.

“A gratuidade deveria ser uma das características do cristão, que, consciente de ter recebido tudo de Deus gratuitamente, isto é, sem nenhum mérito, aprende a doar aos outros gratuitamente. Hoje comumente a gratuidade não faz parte da vida cotidiana, na qual tudo se vende e tudo se compra. Tudo é cálculo e medida. A esmola ajuda-nos a viver a gratuidade do dom, que é liberdade da obsessão da posse, do medo de perder aquilo que se tem, da tristeza de quem não quer partilhar com os outros o próprio bem-estar.”

Com seus convites à conversão, a Quaresma vem providencialmente despertar-nos, despertar-nos do torpor, do risco de seguir adiante por inércia. “A exortação que o Senhor nos dirige por meio do profeta Joel é forte e clara: ‘Retornai a mim de todo vosso coração’. Por que devemos voltar para Deus? Porque alguma coisa não está bem em nós, em nossa sociedade, na Igreja e precisamos mudar, dar uma reviravolta, converter-nos!”, sublinhou ainda o Santo Padre.

“Mais uma vez a Quaresma vem dirigir-nos seu apelo profético, para recordar-nos que é possível realizar algo de novo em nós mesmos e em torno a nós, simplesmente porque Deus é fiel, continua sendo rico de bondade e de misericórdia, e está sempre pronto a perdoar e recomeçar do início. Com essa confiança filial, coloquemo-nos a caminho”, concluiu o Papa Francisco.

Leia a íntegra da homilia:

“Rasgai o coração, e não as vestes” (Jl 2,13).

Com estas palavras penetrantes do profeta Joel, a liturgia nos introduz hoje na Quaresma, indicando na conversão do coração a característica deste tempo de graça. O apelo profético constitui um desafio para todos nós, sem exceção, e nos lembra que a conversão não se reduz a formas exteriores ou em propósitos vagos, mas envolve e transforma toda a existência a partir do centro da pessoa, da consciência. Somos convidados a iniciar esse caminho, no qual, desafiando a rotina, nos esforçamos para abrir nossos olhos e ouvidos, mas especialmente o coração, para ir além do nosso “quintal”.

Abrir-se a Deus e aos outros. Vivemos em um mundo cada vez mais artificial, em uma cultura do “fazer”, do “útil”, onde sem perceber excluímos a Deus de nosso horizonte. A Quaresma nos convida a despertar, para nos lembrar que somos criaturas, que não somos Deus

E também em relação aos outros , corremos o risco de nos fechar, de esquecê-los. Mas só quando as dificuldades e os sofrimentos de nossos irmãos nos desafiam, só então podemos começar nosso caminho de conversão rumo à Páscoa. É um itinerário que inclui a cruz e a renúncia. O Evangelho de hoje mostra os elementos desta jornada espiritual: a oração, o jejum e a esmola (cf. Mt 6,1-6.16-18). Todos os três envolvem a necessidade de não ser dominado por coisas que aparecem: o que importa não é a aparência, e o valor da vida não depende da aprovação dos outros ou do sucesso, mas daquilo que temos dentro de nós.

O primeiro elemento é a oração. A oração é a força do cristão e de toda pessoa que crê. Na fraqueza e na fragilidade da nossa vida, podemos nos voltar para Deus com a confiança de filhos e entrar em comunhão com Ele. Diante de tantas feridas que nos fazem mal e poderiam endurecer o coração, somos chamados a mergulhar no mar da oração, que é o mar do amor sem limites de Deus, para desfrutar de sua ternura. A Quaresma é um tempo de oração, uma oração mais intensa, mais assídua, mais capaz de cuidar das necessidades dos irmãos, de interceder junto a Deus por tantas situações de pobreza e sofrimento.

O segundo elemento qualificante do caminho quaresmal é o jejum. Devemos ter cuidado para não fazer um jejum formal, ou que na verdade nos “sacia” porque nos faz sentir justificados. O jejum faz sentido se realmente afeta a nossa segurança, e também se consegue um benefício para os outros, se nos ajuda a crescer no espírito do Bom Samaritano, que se inclina sobre o seu irmão em necessidade e cuida dele. O jejum envolve a escolha de uma vida sóbria, que não desperdiça, que não descarta. O jejum ajuda-nos a treinar o coração na essencialidade na partilha. É um sinal de consciência e responsabilidade diante das injustiças, abusos, especialmente para com os pobres e os pequeninos, e é um sinal da confiança que depositamos em Deus e sua na providência.

O terceiro elemento é a esmola: ela indica a gratuidade, porque a esmola é dada a alguém de quem não se pode esperar nada em troca. A gratuidade deveria ser uma das características do cristão, que, consciente de ter recebido tudo de Deus livremente, isto é, sem qualquer mérito, aprende dar aos outros gratuitamente. Hoje, muitas vezes a gratuidade não faz parte da vida cotidiana, pois tudo é comprado e vendido. Tudo é cálculo e medição. A esmola ajuda-nos a viver a gratuidade do dom, que é a liberdade da obsessão pela posse, o medo de perder o que se tem, da tristeza daqueles que não querem compartilhar com os outros o seu próprio bem-estar.

Com seus apelos à conversão, a Quaresma providencialmente vem despertar-nos, para sacudir- nos do torpor, do risco de avançar por inércia. A exortação que o Senhor nos faz através do profeta Joel é alta e clara: “Retornem para mim de todo o vosso coração” (Joel 2, 12). Por que devemos voltar para Deus? Porque algo está errado em nós, na sociedade, na Igreja e nós precisamos de mudança, de uma transformação, precisamos nos converter! Mais uma vez a Quaresma vem dirigir-nos um apelo profético para nos lembrar que é possível realizar algo novo em nós mesmos e ao nosso redor, simplesmente porque Deus é fiel, continua a ser cheio de bondade e misericórdia, e está sempre pronto a perdoar e recomeçar. Com esta confiança filial, coloquemo-nos a caminho!