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› 19/06/2012

Homilia do Papa Bento 16 na Festa de São Pedro e São Paulo

Queridos irmãos e irmãs!

Os textos bíblicos desta Liturgia Eucarística da Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo,na sua grande riqueza, ressaltam um tema que se poderia resumir assim: Deus está próximo de seus fiéis servidores e os livra de todo o mal, e livra a Igreja das forças negativas. É o tema da liberdade da Igreja, que apresenta um aspecto histórico e um outro mais profundamente espiritual.

Esta temática atravessa toda a Liturgia da Palavra de hoje. A primeira e a segunda Leitura falam, respectivamente, de São Pedro e de São Paulo, salientando exatamente a ação libertadora de Deus sobre eles. Especialmente o texto dos Atos dos Apóstolos descreve com abundância de detalhes a intervenção do anjo do Senhor, que soltou Pedro das correntes e o conduziu para fora do cárcere de Jerusalém, onde o havia aprisionado, sob rígida vigilância, o rei Herodes (cf. At 12, 1-11 ).

Paulo, por sua vez, escrevendo a Timóteo quando sente que está perto o fim de sua vida terra, faz um balanço final do qual emerge que o Senhor esteve sempre perto de si, o livrou de muitos perigos e ainda o libertará, introduzindo-o em seu Reino eterno (cf. II Tm 4, 6-8.17-18). O tema é reforçado pelo Salmo Responsorial (Sal 33), e encontra um particular desenvolvimento também no trecho evangélico da confissão de Pedro, lá onde Cristo promete que as forças do inferno não prevalecerão sobre sua Igreja (cf. Mt 16, 18).

Observando-se bem, nota-se, com relação a esta temática, uma certa progressão. Na primeira Leitura, é narrado um episódio que mostra a intervenção específica do Senhor para libertar Pedro da prisão; na segunda, Paulo, com base em sua extraordinária experiência apostólica, afirma estar convencido de que o Senhor, que já o havia livrado “da boca do leão”, o livrará de “todo o mal”, abrindo-lhe as portas do Céu; no Evangelho, ao contrário, não se fala mais dos Apóstolos individualmente, mas da Igreja no seu conjunto e da sua proteção com relação às forças do mal, entendida em sentido amplo e profundo.

Desse modo, vemos que a promessa de Jesus  “as forças do inferno não prevalecerão” sobre a Igreja – compreende, sim, as experiências históricas de perseguição sofridas por Pedro e Paulo e outras testemunhas do Evangelho, mas vai além, desejando assegurar a proteção sobretudo contra as ameaças de ordem espiritual; segundo o que Paulo escreve na Carta aos Efésios: “Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal (espalhadas) nos ares” (Ef 6, 12).

Com efeito, se pensamos nos dois milênios de história da Igreja, podemos observar que – como havia prenunciado o Senhor Jesus (cf. Mt 10, 16-33) – nunca faltaram para os cristãos as provações, que em alguns períodos e lugares assumiram o caráter de verdadeiras e próprias perseguições. Essas, no entanto, apesar do sofrimento que provocam, não constituem o perigo mais grave para a Igreja. O dano maior, de fato, provém daquilo que polui a fé e a vida cristã dos seus membros e das suas comunidades, afetando a integridade do Corpo Místico, enfraquecendo a sua capacidade de profecia e testemunho, manchando a beleza de seu rosto. Essa realidade é atestada já no epistolário [cartas] paulino.

A Primeira Carta aos Coríntios, por exemplo, responde exatamente a alguns problemas de divisões, incoerências, infidelidade ao Evangelho, que ameaçam seriamente a Igreja. Mas também a Segunda Carta a Timóteo – da qual ouvimos uma parte – fala sobre os perigos dos “últimos tempos”, identificando-os com atitudes negativas que pertencem ao mundo e podem contagiar a comunidade cristã: egoísmo, vaidade, orgulho, apego ao dinheiro,etc. (cf. 3, 1-5). A conclusão do Apóstolo é reconfortante: os homens que fazem o mal – escreve – “não irão longe, porque será manifesta a todos a sua insensatez” (3, 9).Existe, portanto, uma garantia de liberdade assegurada por Deus à Igreja, liberdade seja dos laços materiais que procuram impedir ou coagir a missão, seja dos males espirituais e morais, que podem afetar a autenticidade e credibilidade.

O tema da liberdade da Igreja, garantida por Cristo a Pedro, tem também uma relevância específica para o rito da imposição do pálio, que hoje renovamos para trinta e oito Arcebispos Metropolitanos, aos quais dirijo a minha mais cordial saudação, estendendo-a com afeto àqueles que quiseram acompanhá-los nesta peregrinação.

A comunhão com Pedro e seus sucessores, de fato, é garantia de liberdade para os pastores da Igreja e para a própria Comunidade a eles confiada. E isso em ambos os planos destacados nas reflexões precedentes. No plano histórico, a união com a Sé Apostólica assegura às Igrejas particulares e às Conferências Episcopais a liberdade com relação aos poderes locais, nacionais ou supranacionais, que podem, em certos casos, obstaculizar a missão da Igreja.

Além disso, e mais essencialmente, o ministério petrino é garantia de liberdade no sentido da plena adesão à verdade, à autêntica tradição, de tal forma que o Povo de Deus seja preservado de erros concernentes à fé e à moral. Daí que o fato de, todo o ano, os novos Metropolitanos virem a Roma para receber o Pálio das mãos do Papa deva ser compreendido no seu significado próprio, como gesto de comunhão, e o tema da liberdade da Igreja nos oferece uma chave de leitura particularmente importante. Isso aparece de modo evidente no caso das Igrejas marcadas pela perseguição, ou sujeitas a interferências políticas ou outras duras provações.

Mas isso não é menos relevante no caso de Comunidades que padecem a influência de doutrinas enganadoras, ou de tendências ideológicas e práticas contrárias ao Evangelho. O pálio, assim, torna-se, neste sentido, um compromisso de liberdade, analogamente ao “jugo” de Jesus, que Ele convida a tomar, cada um sobre seus próprios ombros (cf. Mt 11, 29-30). Como o mandamento de Cristo – embora exigente – é “doce e leve” e, ao invés de pesar sobre quem o leva, o levanta, assim o vínculo com a Sé Apostólica – embora desafiador – sustenta o Pastor e a porção da Igreja confiada aos seus cuidados, tornando-lhes mais livres e mais fortes.

Uma última indicação gostaria de trazer da Palavra de Deus, em particular da promessa de Cristo de que os poderes do inferno não prevalecerão sobre sua Igreja. Essas palavras podem ter também um significativo valor ecumênico, a partir do momento que, como citei há pouco, um dos efeitos típicos da ação do Maligno é exatamente a divisão no interior da comunidade eclesial. As divisões, de fato, são sintomas da força do pecado, que continua a agir nos membros da Igreja mesmo após a redenção.

Mas a palavra de Cristo é clara: Non praevalebunt – não prevalecerão” (Mt 16, 18). A unidade da Igreja está enraizada na sua união com Cristo, e a causa da plena unidade dos cristãos – sempre a se buscar e renovar, de geração em geração – é, então, sustentada pela sua oração e sua promessa. Na luta contra o espírito do mal, Deus nos doou em Jesus o “advogado” defensor, e, depois da sua Páscoa, “um outro Paráclito”(cf. Jo 14, 16)o Espírito Santo, que permanece conosco para sempre e conduz a Igreja rumo à plenitude da verdade (cf. Jo 14,16; 16, 13)que é também a plenitude da caridade e da unidade.

Com esses sentimentos de confiante esperança, tenho o prazer de saudar a Delegação do Patriarcado de Constantinopla, que, segundo o belo costume das visitas recíprocas, participa nas celebrações dos Santos Patronos de Roma. Juntos, rendamos graças a Deus pelos progressos nas relações ecumênicas entre católicos e ortodoxos, e renovemos o compromisso de corresponder generosamente à graça de Deus, que nos conduz à plena comunhão.

Queridos amigos, saúdo cordialmente a cada um de vós: Senhores Cardeais, Irmãos nos Episcopado, Senhores Embaixadores e Autoridades civis, em particular o Prefeito de Roma, sacerdotes, religiosos e fiéis leigos. Obrigado pela vossa presença. Os santos Apóstolos Pedro e Paulo alcancem para vós um amar sempre mais e mais a Santa Igreja, corpo místico de Cristo o Senhor e mensageira de unidade e de paz para todos os homens. Vos alcancem também o oferecer com alegria para a própria santidade e missão as fadigas e sofrimentos suportados pela fidelidade ao Evangelho.

A Virgem Maria, Rainha dos Apóstolos e Mãe da Igreja, assista sempre a vós, em particular sobre o ministério dos Arcebispos Metropolitanos. Com o seu celeste auxílio, possais sempre viver e agir naquela liberdade que Cristo nos conquistou. Amém.

Fonte: Boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé

Cidade do Vaticano: Terça-feira, 29 de junho de 2010



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