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Mensagem do pároco › 06/09/2016

“Nada neste mundo nos é indiferente”

DSC_4436 (2)Os relatos da criação que encontramos logo no início do livro do Gênesis se apresentam com grande riqueza e beleza, capazes de, lidos com a devida atenção, lançar luz sobre uma dimensão que acreditamos ser de vital importância para a vida humana: despertar no humano o cuidado para com a criação. Quando dizemos criação, não estamos referindo para algo distante de nós, mas nos referimos a tudo que nos cerca, dimensões estas das quais dependemos. O humano é por excelência um ser “criatural”.

Logo no primeiro capítulo do Gênesis, encontramos o autor sagrado dizendo “Façamos o ser humano à nossa imagem e semelhança. Que eles dominem os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos e toda a terra e também os seres que vivem sob a terra. E Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou” (cf. Gn 1,26-27).

O interesse do autor sagrado paira em mostrar que a Palavra de Deus que cria o ser humano, com suas semelhanças e diferenças, confere-lhe uma missão muito nobre e vital: guardar a criação. À medida que guardam e cultivam a criação, possibilitando que essa se torne cada vez mais um bom legado para as futuras gerações, o humano vai consequentemente se tornando semelhante a Deus. Tornar-se semelhante a Deus é uma escolha, que envolve, por assim dizer, nossa liberdade. Por termos sido criados pela vontade de Deus, somos sua imagem, como um dom dado a cada um de nós; contudo, fazer-se imagem, é graça e constante busca, para que a harmonia sonhada por Deus para sua criação, o seu “paraíso”, não fique desfigurado pelo pecado do ser humano. Pecado esse muitas vezes sinônimo de destruição dos bens criados.

Nós cristãos por séculos vimos esquecendo que desfigurar a criação, manchando-a pela exploração devido o consumo exacerbado, a poluição das águas, do ar, do solo, constituem pecado grave, pois ferimos tantas vezes de um mal que já não tem cura aquilo que é também o corpo de Cristo: a sua criação e nela consequentemente toda a humanidade. Por vezes, o ser humano não assumiu a missão e vocação dada por Deus ao cria-los como “animais racionais”, de agirem com sabedoria, como verdadeiros cuidadores da criação.

O papa Francisco, em sua Carta Laudato Si, assim coloca: “Quando os seres humanos destroem a biodiversidade da criação de Deus; quando os seres humanos comprometem a integridade da terra e contribuem para a mudança climática, desnudando a terra das suas florestas naturais ou destruindo suas zonas úmidas; quando os seres humanos contaminam as águas, o solo, o ar… tudo isso é pecado. Porque um crime contra a natureza é um crime contra nós mesmos e um pecado contra Deus” (cf LS, nº 8, p. 13).

Talvez aos poucos, tenhamos perdido a capacidade de nos admirar das coisas criadas e nos esquecido que nós e toda a natureza temos uma origem comum. Se a natureza sofre, sofremos nós também. Vivemos, quer queiramos ou não, uma interdependência tão grande que é impossível pensarmos a nossa sobrevivência nesse mundo sem a generosidade dos bens que a “Mãe Terra” nos proporciona constantemente como mãe generosa.

O Papa Francisco assim escreve: “Se nos aproximamos da natureza e do meio ambiente sem essa abertura para a admiração e o encanto, se deixarmos de falar a língua da fraternidade e da beleza na nossa relação com o mundo, então as nossas atitudes serão as do dominador, do consumidor ou de um mero explorador dos recursos naturais, incapaz de pôr um limite aos seus interesses imediatos. Pelo contrário, se nos sentirmos intimamente unidos a tudo o que existe, então brotarão de modo espontâneo a sobriedade e a solicitude. A pobreza e a austeridade de Francisco não eram simplesmente um ascetismo exterior, mas algo de mais radical: uma renúncia a fazer da realidade um mero objeto de uso e domínio” (cf LS nº 11, p. 15).

Estamos bem próximos da festa de São Francisco de Assis, considerado patrono da ecologia. Admirar Francisco, muito mais que um sentimento, requer nossa atitude de nos convencer que ou vivemos uma fraternidade universal com a humanidade e as criaturas todas, evitando todo tipo de exploração, exageros no consumo, dominação, promoção de guerras, rixas e rivalidades, ou teremos todos um alto preço a pagar pela natureza toda que sofre e aos poucos, seremos quais filhos órfãos desamparados pela Mãe Terra.

Como já dissera alguém, é preciso “acordar dentro de nós o Francisco de Assis escondido dentro de cada um, forçando por expandir-se por entre os antolhos da vida”!

Frei Valdecir Schwambach, ofm