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Ministro Geral da OFM faz uma emocionante homilia na solene abertura do Perdão de Assis

michael_010817A Solenidade do Perdão de Assis foi aberta nesta terça-feira, 1º de agosto, no Santuário da Porciúncula, em Assis. Este ano a festa do Perdão tem um significado particular, pois coincide com o encerramento do VIII Centenário do Perdão de Assis, Jubileu que foi aberto em 2 de agosto de 2016 pelo Cardeal Gualtiero Bassetti, e enriquecido com a peregrinação do Papa Francisco à Porciúncula dois dias mais tarde, em 4 de agosto de 2016. A solene celebração de encerramento do Jubileu do Perdão será realizada nesta quarta-feira, às 11 horas, e será presidida pelo Cardeal Secretario de Estado, Pietro Parolin.

Às 11 horas de hoje, o Ministro Geral dos Frades Menores, Frei Michael Perry, presidiu a solene Celebração Eucarística, que foi concluída com a Procissão de “Abertura do Perdão”.

Assim, das 12 horas deste dia 1º de agosto até às 24 horas do dia 2, será concedida a Indulgência Plenária na Porciúncula, que se estende a todas as igrejas paroquiais espalhadas no mundo, incluindo todas as igrejas franciscanas.

Frei Michael contou uma emocionante história, de dor e sofrimento, para falar do perdão e da misericórdia.

LEIA  NA ÍNTEGRA A HOMILIA

Queridos irmãos e irmãs, o Senhor vos dê a Sua paz e Sua misericórdia!

No mês passado, ao visitar os frades na região de Chiapas, no México, perto da fronteira com a Guatemala, conheci uma família que estava fugindo de seu país de origem, El Salvador. Seu exílio foi causado por um acontecimento muito preocupante: o espancamento e o desaparecimento de seu filho Emílio de 15 anos. Desde a idade de 11 anos, o menino foi forçado a unir-se a uma das gangues. Durante quatro anos, o pai, soldador de profissão, e sua mãe tentaram manter a família unida. Havia três outros irmãos: uma filha de 13 anos, um filho de 9 e uma menina de 4. Um dia, chegou  a notícia de que seu filho tinha sido espancado publicamente por uma gangue rival, teve os dedos amputados e, depois foi levado para um lugar desconhecido. Os pais chamaram a polícia para  obter ajuda, mas não aconteceu nada. Eles passaram quatro meses sem uma palavra a respeito do filho. Foi, então, que seu pai decidiu que não podia mais correr o risco continuar vivendo em El Salvador. O que havia acontecido com seu primeiro filho poderia acontecer com o segundo. Temia também por sua esposa e suas filhas. Com a ajuda de traficantes pagos, a família mudou-se para uma pequena cidade no México, na região de Chiapas, longe da fronteira com a Guatemala. A família pensava que seu pesadelo de violência estivesse acabado, e que o sonho de encontrar um lugar de reconstruir suas próprias vidas estivesse se tornando realidade.

Mas a história de violência não tinha ainda acabado para a família. Durante a segunda semana de sua chegada ao México, alguns membros de uma gangue mexicana pegaram a menina no meio da multidão e levaram-na para uma casa abandonada onde a violentaram. Três meses após o acontecimento, a família descobriu que a menina estava grávida e também era soropositiva, uma inocente garotinha de 13 anos. Enquanto ouvíamos a história, no rosto do pai, da mãe e da filha começaram a cair lágrimas. Dois outros confrades e eu, na sala com a família,  lutávamos para controlar nossas emoções e segurar as lágrimas enquanto escutávamos tal sofrimento e tragédia humana.

Por quase sete meses, a família foi hóspede do Centro Franciscano  “Os Setenta e Dois” no México. É um centro que acolhe aqueles que fogem de todas as formas de violência e todas as formas de opressão, que necessitam de segurança, abrigo, cuidado humano e esperança. Enquanto o pai continuava a contar a vida de sua família, não ouvimos gritos de raiva, nem pedidos de vingança. Ele nos pediu que rezássemos por ele, pela sua esposa, por seu filho desaparecido Emilio, por sua filha grávida e infectada, pelos outros dois filhos, e pelos membros da mesma família que tinha permanecido em El Salvador. Ele também pediu orações para ele e sua família para que pudessem perdoar aqueles que sequestraram seu filho Emilio, que haviam violentado, engravidado e infectado sua filha com o vírus HIV.

O pai nos pediu para orar por eles para que não fossem consumidos pelo ódio ou pela vingança, nem pela lembrança contínua da violência que experimentaram, enquanto eles rezavam por Emilio, pela filha e pelas pessoas amadas que haviam deixado em El Salvador. Ele nos pediu que rezássemos para que eles pudessem alcançar a paz diante de tudo que aconteceu, e que Deus pudesse mudar os corações daqueles que tinham lhes causado tanto sofrimento, que perpetraram tais atos horríveis de violência. Enquanto o mundo lhes diria que tinham o direito à justiça e à vingança, eles diziam ao mundo – a nós – que olho por olho torna o mundo cego. O perdão é o único instrumento a dar vida à paz, à cura e à alegria autêntica.

Como vocês bem podem imaginar,  não consegui esquecer a história, ou o pai, as faces da mãe, das duas filhas e do filho. Também não tenho conseguido parar de rezar por Emílio, o filho desaparecido, nem pela sua filha infectada ou pelo desejo do pai que a família receba o dom do perdão e da misericórdia.

“Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos os nossos devedores. E não nos deixes cair em tentação … a tentação de perder a fé, de buscar o ódio, e de permitir que a raiva e a dor manchem a nossa identidade de filhos de Deus, amados e perdoados, e chamados a serem “embaixadores da reconciliação” para uma humanidade e comunidade mundial feridas. Estas palavras: “Perdoai-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos os pecados dos outros” são palavras muito bem conhecidas por todos nós. Rezamos sozinhos e até mesmo quando nos reunimos para rezar em nossas comunidades cristãs. A família de El Salvador, apesar da dor esmagadora da tragédia e perda, acolheu as palavras de perdão e misericórdia pronunciadas por Jesus, que nos convida também a unirmo-nos a Ele no seu corajoso ato de perdoar os outros pelo mal que eles cometeram contra Ele, contra a humanidade inteira.

Por que estamos rezando nós, aqui, nestes dias em Santa Maria dos Anjos, a Porciúncula? Estamos pedindo para que o Senhor possa nos absolver de nossos pecados? Isto está certo e é bom, porque somos peregrinos no caminho da misericórdia e do perdão. Mas, eu creio também que, como a família de El Salvador, Jesus  esteja nos convidando a abrir  os nossos corações à Sua graça, uma graça que perdoa os outros, uma graça que nos transforma em agentes ativos que promovem o perdão, a reconciliação e o amor entre  todas as pessoas, começando por aquelas mais próximas e queridas por nós, mas sempre abrindo-nos para fora para abraçar todas as pessoas, também aquelas que identificamos como nossos “inimigos”. Como nos recorda São João Paulo II na sua Encíclica sobre a misericórdia e o perdão, “Dives in Misericordia” (13 de novembro de 1980, Part. 3, parágrafo 3.): “O mundo dos homens só poderá tornar-se ‘cada vez mais humano’ quando introduzirmos em todas as relações recíprocas, que formam a sua fisionomia moral, o momento do perdão, tão essencial no Evangelho. O perdão atesta que no mundo está presente o amor mais forte que o pecado. O perdão, além disso, é a condição fundamental da reconciliação, não só nas relações de Deus com o homem, mas também nas relações recíprocas dos homens entre si”.

“Vinde a mim!” Irmãos e irmãs, unamo-nos a Jesus, a São João Paulo II e à família de El Salvador para rezarmos pelo perdão – por nós e por aqueles que amamos. Reconstruamos a partir desta experiência de amor e perdão, alcançando todo o povo de Deus, sem exclusões ou exceções, oferecendo a todos um sinal da graça do perdão e da misericórdia que recebemos e que agora somos chamados a compartilhar com todos como embaixadores do amor reconciliador de Deus! Possa a graça abundante de Deus, que celebramos aqui, nesta festa de Santa Maria dos Anjos, festa de misericórdia, perdão, amor e esperança,  transformar-nos de dentro para fora e de baixo para o alto, de modo que as nossas vidas possam dar glória e honra a Deus, fonte de toda a vida e esperança.

Boa Festa da Porciúncula!



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