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Notícias › 20/09/2013

Papa Francisco pede uma Igreja misericordiosa

papaFRANCISCONa sua primeira entrevista de cerca de trinta páginas com o diretor da “La Civiltà Cattolica”, Pe. Antonio Spadaro, após seis meses como Papa, Francisco voltou a mostrar, em linhas gerais, como será o seu Pontificado e declarou que a Igreja Católica se tornou “obcecada” por temas como o aborto, o casamento homossexual e a contracepção.

“Não podemos concentrar-nos só nestes temas. Não tenho falado muito sobre estes temas e, por vezes, isso tem me sido apontado. Mas quando se fala destes assuntos, deve ser no devido contexto. Sabemos qual é a opinião da Igreja e eu sou um filho da Igreja, mas não é preciso continuarmos a falar disso assim”.

Nesta entrevista, o Papa traça as prioridades da sua ação pastoral e revela alguns pormenores sobre si próprio. “Um pecador para quem Deus olhou”, define-se o Papa Francisco. A entrevista, que é publicada em inglês pela revista America, dos jesuítas norte-americanos, foi revista pessoalmente pelo Papa, adianta o New York Times.

“Temos de encontrar um novo equilíbrio, se não o edifício moral da Igreja pode cair como um palácio de cartas”, disse Francisco. Os ministros da Igreja devem ter como primeira missão levar uma palavra de “misericórdia”, a mensagem de salvação de Jesus Cristo, sublinhou. “Proclamar o amor redentor de Deus é um dever prioritário, antes do dever moral e religioso. Mas hoje parece que muitas vezes acontece o contrário”, afirmou.

“A capacidade de curar as feridas e de aquecer o coração dos fiéis, de estar perto, a proximidade… E precisa começar de baixo”, disse o Papa explicando aquilo de que a Igreja mais precisa.

“Eu vejo a Igreja como um hospital de campo após uma batalha. É inútil – diz – perguntar a um ferido grave se tem colesterol e glicose altos! É preciso curar as feridas. Depois se poderá falar de todo o restante”, acrescentou.

“A Igreja – prossegue –, por vezes, se fechou em pequenas coisas, pequenos preceitos. A coisa mais importante, ao invés, é o primeiro anúncio: ‘Jesus o salvou!’. Portanto, os ministros da Igreja, em primeiro lugar, devem ser ministros de misericórdia” e “as reformas organizativas e estruturais são secundárias, ou seja, vêm depois”, porque “a primeira reforma deve ser a da atitude”.

A imagem da Igreja evocada na entrevista é a expressa no Concílio Vaticano II na Lumen Gentium “do santo povo fiel de Deus”, e “sentir com a Igreja” para Francisco é “estar neste povo”.

Uma Igreja que não quer reduzir-se a conter “apenas um grupinho de pessoas selecionadas”, mas deve ser uma “Igreja Mãe e Pastora”. “A Igreja é fecunda, deve sê-lo”, diz o Papa contando que quando se dá conta de “comportamentos negativos de ministros da Igreja” ou pessoas consagradas, a primeira coisa que lhe vem na mente é: “‘Eis um solteirão’ ou ‘eis uma solteirona’”. “Não são nem pais, nem mães. Não foram capazes gerar a vida”, diz.

Entre outras questões, o diretor da referida revista jesuíta voltou também a temas complexos como divorciados em segunda união e a questão da homossexualidade, que tanta violência e polêmica têm causado pelo mundo.

“Quando estava em Buenos Aires, recebi cartas de pessoas homossexuais que estavam ‘socialmente feridas’ porque me diziam que a Igreja sempre os tinha rejeitados. Mas essa não é a intenção da Igreja. No avião de regresso do Rio de Janeiro, disse: ‘Se um gay procurar Deus, quem sou eu para o julgar.’” Reitera o Catecismo da Igreja Católica – que diz que as pessoas homossexuais são chamadas à castidade –, mas sublinha o primado da liberdade: “Deus deu-nos a liberdade quando nos criou: não é possível a interferência espiritual na vida pessoal de outra pessoa.”

Sobre as reformas, Francisco disse que não se fazem num abrir e fechar de olhos: “Muitos pensam que a mudança e as reformas podem acontecer num período muito curto. Eu acredito que leva tempo a construir as fundações de uma mudança real e eficaz. E esta é a altura do discernimento. Às vezes, o discernimento leva-nos a agir no imediato, quando inicialmente íamos deixar uma ação para mais tarde. Isto é o que me tem acontecido nos últimos meses”, confessou o Papa Francisco.

De fato, para o Papa Francisco “os ministros do Evangelho devem ser pessoas capazes de aquecer o coração das pessoas, de caminhar com elas na noite, de saber dialogar e também entrar na noite delas, na escuridão delas sem perder-se. O povo de Deus – diz – quer pastores e não funcionários ou clérigos de Estado”.

Quanto à pastoral missionária, o Papa explica que não se deve ter “obsessão pela transmissão desarticulada de um amontoado de doutrina a ser imposta com insistência”. O anúncio missionário se concentra “no essencial” que é também aquilo que mais atrai, “aquilo que faz arder o coração”.

O Papa Francisco falou dos tradicionalistas. “A visão dos que procuram soluções disciplinares, que dão excessiva importância em resguardar a doutrina e estão obcecados em trazer de volta um passado que já lá vai, é estática e regressiva”, afirmou. A certeza que o orienta a sua ação, a sua “certeza dogmática”, é que “Deus está presente na vida de todas as pessoas, mesmo se essa vida tiver sido destruída por maus hábitos, por drogas ou seja o que for”.

No final da entrevista, o Papa Francisco lembrou que “Deus o encontramos caminhando”: “Deus é sempre uma surpresa  e, portanto, jamais se sabe onde e como encontrá-lo; não é você quem fixa o tempo nem os lugares do encontro com Ele”.

Leia a íntegra da entrevista



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