Paróquia São Francisco de Assis

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A Lectio divina

Lectio divina ou leitura orante da Bíblia é um antigo método de oração da cristandade, através da aproximação reverente das Sagradas Escrituras, repleta de fé, invocando sempre o Espírito Santo – seu verdadeiro autor – buscando meditar as verdades salvíficas e finalmente, encontrar a Palavra Eterna de Deus, Jesus, o Verbo Encarnado.

  “Feliz o homem…(cujo) prazer está na Lei de Iahweh e nela medita dia e noite”
(Sl 1, 1-2)

Um pouco de história

Enraizada é a tradição piedosa de Israel que considera a palavra de Deus doce ao paladar. A leitura reverente e o estudo da Torá e dos Profetas nas sinagogas aos sábados faz parte do cotidiano, enquanto que as orações do Salmos são cantadas em diversos momentos do dia.

Desde o início da cristandade, ainda nos primeiros séculos, os padres da Igreja exortavam seus discípulos ao estudo e à meditação das Sagradas Escrituras.
Santo Ambrósio foi o primeiro padre latino a utilizar a expressão lectio divina. Cassiano (sec. V d.C) assim escreve ao abade Nestório: “Esforça-te em aplicar-te assiduamente, aliás, constantemente, à lectio divina, e insiste nisto até que esta meditação contínua tenha impregnado a tua alma e, de certa forma, a tenha plasmado à sua imagem” ” (Conferências, XIV, 10).

Com o tempo, a prática da lectio divina foi integrada nas regras dos mosteiros e preservada desde então. No século XII o cartuxo Guigo II descreve os quatro clássicos graus da lectio divina: lectio (leitura), meditatio (meditação), oratio (oração) e contemplatio (contemplação).

A partir do Concílio Vaticano II houve grande impulso para o estudo e acessibilidade a todos das Sagradas Escrituras, incluindo a leitura assídua e piedosa da Bíblia, seguida da oração e anúncio. Nos anos que se seguiram a lectio divina teve grande adesão dos fiéis leigos e de vida consagrada.

As atitudes espirituais necessárias para um crescimento no amor à Palavra são escuta silenciosa (quietude externa e interior), atitude de fé e humildade, comunhão com a Igreja, invocação e docilidade ao Espírito.

Mas…. Rezar a Bíblia?

Fazer uma leitura orante, claramente, não se trata de abordagem primariamente intelectual, de estudo especulativo da Bíblia, embora seja útil e importante para todo fiel católico conhecer e se familiarizar com o texto bíblico de modo a compreender sua estrutura, o gênero literário, o contexto. Aqui, se propõe que o coração se abra à iluminação e à experiência do Amor de Deus partilhada pelo Povo de Deus através da história, na oração e meditação do Texto Sagrado.

Basicamente este método se inicia com a invocação do Espírito Santo antes de iniciar a leitura-texto (preferencialmente iniciar por um dos Evangelhos). Leitura calma, atenta, mais de uma vez. O texto a ser lido deverá ser suficientemente claro e completo em si mesmo, não muito longo. Procurar entender o que o texto diz. Na meditação, procurar a expressão ou palavra que fez ressonância, que chamou atenção. Confrontar a palavra de Deus com a vida vivida; meditação reflexiva. Na oração, os afetos provocam a súplica, o louvor, a ação de graças que se elevam a Deus em resposta a Deus que nos fala. Na contemplação, no agir de Deus em nós, saboreamos o encontro. Consistentemente e de modo perseverante, a oração nos torna mais sensíveis à ação e aos sinais do Senhor.

Neste sentido, a lectio divina é prática oracional que nos permite um caminhar ao lado de Jesus como o fizeram os discípulos na estrada de Emaús.  Colocando-nos em Sua presença perscrutando a Palavra de Deus, encontramos seu significado mais profundo na pessoa de Cristo Ressuscitado, porque Ele é o Vivente, e toda a Escritura se realiza e é interpretada pelo fato de que Cristo ressuscitou. Como aqueles caminhantes, queremos ficar ao Seu lado, à medida que nosso coração se transforma com este encontro.

A meditação do Texto Sagrado nos introduz em Seu Mistério da Encarnação, Paixão e Morte e Ressureição e nos prepara para reconhecê-Lo, numa experiência mais profunda na Celebração Eucarística. Como aqueles discípulos, que correndo de volta a Jerusalém para encontrar os onze e confrontaram sua experiência com a de Simão Pedro, nós procuramos nossos irmãos de ontem e de hoje para anunciar e confirmar nossa fé em Cristo ressuscitado como participantes de Seu Corpo, nossa Igreja.

Juliana Rodarte, da Escola Bíblica

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