Talvez o título deste texto possa soar dissonante ao “espírito natalino” que nos
atravessa, parecendo até pessimista. Não, não é esta a proposta desta reflexão, aliás, está
muito longe disso. Os pensamentos aqui trazidos têm a pretensão de ser costurados com
as multicoloridas linhas da esperança que fazem seu balé no grande tecido da vida; e a
vida, ah… ela não acontece em um conto de fadas, mas nas nossas casas, nos hospitais,
nos presídios, nas escolas, embaixo das pontes e nos barracos. A vida acontece na periferia
das nossas existências porque, com tudo e apesar de tudo, o Natal quer renascer. Este
texto quer ser, sobretudo, um grito de resistência, um grito de esperança.
Entre os desafios e as incertezas que atravessam nossos dias, o Natal se apresenta
como um convite irrenunciável à esperança. Mais do que uma data no calendário, ele é a
celebração de um renascimento que ecoa no coração humano, mesmo quando marcado
por dores, perdas e inquietações. É no meio das contradições e da fragilidade da vida que
a mensagem de paz, amor e renovação insiste em florescer, lembrando-nos de que, com
tudo e apesar de tudo, há sempre espaço para recomeçar.
O apóstolo Paulo nos convida, em sua carta aos Romanos, a caminhar “de esperança
em esperança” (Rm 4,18). Essa expressão, tão densa e profunda, nos chama a reconhecer
que a vida não é feita de uma única esperança, mas de muitas, que se renovam, crescem
e se multiplicam à medida que vivemos. E talvez seja essa a sabedoria do Natal: entender
que cada esperança é uma pedra firme no meio das águas turbulentas da vida. O Natal é
um momento privilegiado para revisitar essa mensagem e conectá-la às nossas
experiências mais humanas e cotidianas.
Quando nos voltamos para a simplicidade da gruta de Belém, somos confrontados
com a fragilidade da vida que nasce em meio a condições adversas. Diante dessa cena é
impossível não se perguntar: O que sustentava a esperança de Maria e de José naquela
noite?

Ela, uma menina, longe de casa, sentindo as dores de um parto sem conforto, sem
certeza, sem nada além de um amor imenso por aquele menino que estava para nascer.
José, ao seu lado, sem respostas, mas cheio de presença. Dois humanos, frágeis,
segurando nas mãos o Mistério. Ali, naquele silêncio quebrado pelo choro de um recém-nascido,
a esperança fez sua morada.
Diante dessa cena, contemplando o mistério, outra pergunta não se contém e me
escapa da garganta: E nós? O que sustenta a nossa esperança em tempos tão duros?

O mundo parece pesado demais, violento demais, distante demais daquela ternura da gruta.
Mas talvez o segredo seja este: Deus se faz pequeno, vulnerável, entra na nossa história
pela porta da pobreza e da exclusão. Ele escolheu nascer no simples, no escondido, no
cotidiano. Ele escolheu a ternura como forma de revelar sua grandeza. Essa escolha divina nos ensina que a esperança não é algo grandioso e distante, mas nasce nas pequenas
coisas, nos gestos cotidianos de amor e cuidado. É aí que a esperança brota: no sorriso de quem amamos, na mão que seguramos, no abraço que damos. É no pequeno que o infinito nos alcança.
Penso nos dias que vivemos, na correria, nas dúvidas, nos cansaços. Quantas vezes
achamos que já não há o que esperar? Quantas vezes nos sentimos sozinhos, como se o
peso do mundo fosse só nosso? Mas então vem o Natal, e Deus, no seu jeito teimoso de
amar, sussurra em nossos corações:
“Não desistam. Eu estou aqui. Estou em vocês, nooutro, no caminho que ainda não viram.”
No mundo atual, tão marcado por divisões, indiferença e desigualdade, somos
chamados a conectar nossa vida com o mistério da gruta de Belém. Isso significa enxergar
o outro com os olhos da compaixão e da ternura. Quantas vezes nos encontramos com
pessoas que carregam o peso da solidão, do desemprego ou da perda? O Natal nos
impulsiona a ser presença que acolhe, a reconstruir relações, a curar feridas. Ele nos
convida a sermos, como São Francisco, instrumentos de paz, levando esperança onde há
desânimo e luz onde reina a escuridão.
É preciso, no entanto, coragem para esperar. A esperança não é para os fracos. É
para quem tem a audácia de acreditar que o amor ainda pode transformar, que a justiça
ainda pode acontecer, que a vida ainda vale a pena. É para quem tem o coração ferido,
mas não endurecido. O Natal, sobretudo, nos desafia a acolher a nós mesmos. Não é tarde
para a ternura, para olhar para nossas falhas com misericórdia e nos permitir recomeçar.
Deus se fez pequeno para que pudéssemos acolhê-lo sem medo. Ele nos ensina que não
precisamos ser perfeitos para sermos amados e que o verdadeiro amor transforma não
porque exige, mas porque acolhe.
E talvez seja por isso que o Natal nos emociona tanto: ele nos lembra que Deus
escolheu confiar em nós, mesmo quando nós mesmos não confiamos. Ele veio pequeno,
desarmado, vulnerável, porque sabia que o amor só funciona assim. A cada ano, ele
renasce na nossa história, mesmo nas partes que mais escondemos, trazendo a mensagem:
“De esperança em esperança, vocês chegarão lá.”
De esperança em esperança, somos chamados a transformar nossas vidas. Não com
gestos grandiosos, mas com a fidelidade no dia a dia: uma palavra de ânimo a quem sofre,
um gesto de solidariedade com os mais pobres, um abraço sincero que dissolve as
barreiras do orgulho. Não nos esqueçamos de que a esperança mora nos detalhes: no pão
que você reparte, no tempo que dedica a escutar, na reconciliação que finalmente se
permite. Ela está na conversa franca, no afeto genuíno, no gesto que parece insignificante,
mas que carrega um pedaço do Reino de Deus no presente e nos impulsionam a caminhar,
mesmo quando as dificuldades parecem insuperáveis.
Neste Natal, permitamo-nos renovar as esperanças. Não com expectativas ilusórias,
mas com a certeza de que o Deus de Belém continua nascendo em nossas realidades, nas
mais inesperadas e humildes. Que possamos ser, em nossas casas, comunidades e
trabalhos, testemunhas de um amor que cura, transforma e nos leva, de esperança em
esperança, ao encontro da vida plena.
Lembremo-nos sempre de que Deus ainda nasce nas nossas grutas: na casa humilde,
no coração apertado, nos sonhos que pareciam enterrados. Ele é a chama que não se
apaga, o menino que nos ensina que toda noite pode ser atravessada, que o amor deixa
marcas, e que sempre haverá uma nova pedra para pisar. E, quando o cansaço vier,
lembre-se: a esperança é um convite para continuar. De esperança em esperança,
chegaremos ao que nem imaginamos, porque Deus já nos espera lá, no caminho, na vida
que se renova a cada Natal.
por: Diego Bello Doze – coordenador do CPP