
A Virgem Maria, ao ser visitada por Deus através do anjo Gabriel, recebeu o anúncio divino da Encarnação, acolhendo com inteira disponibilidade o dom da maternidade do Salvador. Esse dom colocou a jovem Maria de Nazaré em incansável movimento de saída, com destaque à visita a Isabel que, por sua vez, também acolheu a maternidade do precursor, como graça e misericórdia de Deus.
Maria leva o anúncio da alegria a Isabel. Repleta da graça materna ali se desenvolvendo, as duas mães vivem uma mútua teofania que resulta em louvor, no Magnificat. A maternidade de ambas se torna um sinal vivo e eloquente da manifestação de Deus na história humana, colocando em movimento de abertura e serviço aquelas duas mulheres que receberam com fé e amor o dom Deus.
Na visita e no encontro de ambas, nasce um novo diálogo como prolongamento do colóquio iniciado pelo anjo Gabriel. A comunicação, motivada pelo Espírito Santo, gera profunda comunhão entre as duas mulheres grávidas. 
Maria atravessa a “região montanhosa” não para levar a si mesma, mas para levar a presença de Deus que a habita e que a colocou na mesma dinâmica de abertura, serviço, de ir ao encontro do outro. À semelhança do “Salvador de seu povo que olhou para a sua pequenez” (Lc 1,47-48), a Virgem Maria continua a dinâmica das visitas de Deus ao longo da história da salvação oferecendo ao seu povo esperança e consolo, a ternura e a paz.

A graça da maternidade de Maria, também se renova e atualiza na maternidade espiritual de inúmeras santas mulheres que, visitadas pela experiência com Deus, potencializaram o dom feminino de ser útero, seio e colo. Essas mulheres, de um jeito novo, espiritual e concreto, passaram a acolher, gerar e alimentar a vida divina nas almas e corpos de seus irmãos e irmãs. Pois, quem vive de verdade no mistério da visita de Deus que se doa nos Sacramentos, na Palavra, na graça concedida no batismo e na intimidade da oração, é capaz de sair de si mesma em direção aos outros, abraçando a dimensão da caridade e da misericórdia como lugar privilegiado de encontro com Deus presente em todos.
Assim viveu nossa mãe Santa Clara que, com Francisco e qual âncora espiritual, discernia na oração e com a fraternidade as intuições do Espírito. Por isso, após a partida do santo Pai, Clara foi capaz de doar suavidade e firmeza à Ordem, confirmando com o seu testemunho de fiel guardiã, o carisma que se expandia por toda parte. E mais, revestiu a mística monástica da Igreja de fecunda maternidade espiritual, cultivando em si e nas Irmãs uma sensibilidade materna de cuidado e acolhimento, isto é, uma fecunda maternidade de cuidado e acolhida a todos, capazes de viverem conscientes a sua missão de visitar, abraçar, gerar e alimentar a vida divina nos batizados: “Demonstrai por fora, por meio das boas obras, o amor que tendes dentro. A que estiver a serviço das Irmãs sejam previdentes e discretas para com suas Irmãs, como uma boa mãe faz com suas filhas (TestC 59-63).
Nossa mãe Santa Clara, na mística esponsalícia com Nosso Senhor Jesus Cristo pobre e crucificado, “tornou-se vestígio da Mãe de Deus, uma nova Maria” (LSC Carta de Introdução), assumindo a maternidade espiritual como missão que se estendeu desde às Irmãs com quem convivia, até aos irmãos e irmãs além-mosteiro. Assim Clara escreve na Regra: “A abadessa exorte e visite suas Irmãs e as corrija com humildade e caridade”; “Manifeste com segurança sua necessidade e se uma mãe ama e nutre sua filha carnal, quanto mais diligentemente deve uma Irmã amar e nutrir sua irmã espiritual (RSC VIII,15-16; X,1). E a Legenda acrescenta: “A venerável Madre não amava só as almas das filhas, mas servia também seus corpos com o zelo de uma caridade admirável” (LSC 38).
Clara, vai amadurecendo o dom da maternidade espiritual no exercício cotidiano com as Irmãs no pequeno mosteiro de São Damião. Esse dom, expande-se em sua oração que desconhece fronteiras, irradia-se na escuta e no acolhimento das pessoas, sejam elas religiosas ou leigas, que a procuravam para serem aconselhados. O próprio cardeal Hugolino recomenda-se de forma surpreendente à inteira responsabilidade espiritual da jovem Clara que tinha então 28 anos: “Sei que não sou digno de ser agregado à companhia dos eleitos nem de me livrar das ocupações terrenas, a menos que tuas lágrimas e orações me alcancem o perdão dos pecados. Entrego-te minha alma e te recomendo meu espírito, para que, como Jesus entregou o espírito a seu Pai na cruz, tu também respondas por mim no dia do juízo” (CtHg 4-5).
Como mãe da família franciscana nascente, seu exemplo de seguimento radical a Cristo teve uma repercussão importante e tão abrangente nos primórdios do franciscanismo, como que um espiral que vai se estendendo sempre mais com uma admirável força de atração. Assim lemos nas Fontes: “A virgem Clara fechou-se no cárcere desse lugar apertado por amor ao Esposo celeste. Neste recinto, quebrou o alabastro do corpo, enchendo a casa da Igreja com o aroma dos perfumes. Já se espalhava a fama de sua santidade pelas regiões vizinhas, e acorreram mulheres de toda a parte. As casadas tratavam de viver mais castamente, até o entusiasmo dos rapazes foi animado. Muitos foram, os homens para as Ordens e as mulheres para os mosteiros. Todos queriam uma parte nessa vida que Clara fez brilhar” (LSC 10-11). De algum modo, todos que conheciam o exemplo de Clara, buscavam em seu próprio estado de vida, seguir seus exemplos como orientação de vida para o seguimento de Cristo. Nela, podiam contemplar a expressão mais viva e fiel de Francisco de Assis.
Tudo o que tocava a vida de Clara se tornava oração. Seu coração universal tinha espaço para todos, e cada pessoa com sua realidade, era instrumento para a intercessão de Clara e das Irmãs. Temos um exemplo muito interessante no Processo de Canonização (16ª test.) que relata um casal separado há mais de 20 anos, cuja mulher foi abandonada porque era estéril. Era um quadro humanamente irreversível, mas o coração incansável de Clara que apresentara tal situação tantas vezes ao Senhor na oração, obteve o milagre. Também é tocante o que ela diz às Irmãs diante do iminente ataque à cidade: “Filhas queridas, recebemos todos os dias muitos bens desta cidade. Seria uma ingratidão se, na hora em que precisa, não a socorrêssemos como podemos. Vão suplicar a Nosso Senhor com todo o coração a libertação da cidade” (LSC 23). Aí está um testemunho de uma maternidade fecunda que, longe de ser indiferente ao outro, desce ao coração das necessidades das pessoas do seu tempo.
Nessa dimensão da maternidade espiritual em Clara, é interessante notar como ela se tornou no mosteiro uma referência às pessoas que encontravam naquele espaço uma escuta, um encontro, uma palavra, uma esperança que se transformava para cada um em lugar da ação de Deus (PC 9ª,6).
Clara viveu a mística da identificação com a Virgem Maria, sabendo ser isso possível pela escuta diária do Evangelho: “Prenda-se à sua dulcíssima Mãe, que gerou tal Filho que os céus não podiam conter, mas que ela recolheu no pequeno claustro do seu santo seio. Assim como a gloriosa Virgem O trouxe materialmente, assim também você, seguindo os seus passos, especialmente os da humildade e pobreza, poderá trazê-lo espiritualmente em um corpo casto e virginal” (3ª CtIn 18.24). Maria, Mãe de Deus, sempre contemplada por nossos Pais fundadores em sua pobreza e humildade, permanece o exemplo que Clara seguiu fielmente e com Ela desenvolveu ao máximo possível os dons de sua feminilidade integrando-os com a vocação, até ao ponto de se tornar plena em fecundidade espiritual. 
Assim também a exemplo da Virgem Maria e de nossa Mãe Santa Clara, as mulheres do nosso tempo, podem encontrar nelas uma referência segura de como viver o dom da feminilidade com suas expressões particulares, colocando-os a serviço do Reino. Sobretudo, são chamadas ao profetismo da maternidade, seja ela biológica ou espiritual, abraçada como missão específica que acolhe, gera e alimenta a vida de Deus nos irmãos.
Desse modo podemos crer numa sociedade humana repleta de sentido e ternura, com pessoas bem-amadas que poderão, por conseguinte, passar adiante o amor que receberam das suas mães, biológicas e espirituais. A dinâmica de sair em visita para levar ao outro um sorriso, uma palavra, um serviço, estabelecer um diálogo-comunhão, pode parecer pouco, mas é um modo eficaz de doar o Amor de Deus que está sempre querendo ser acolhido pela humanidade. É o modo de ser que assumiu a Virgem Maria, é a dinâmica assumida por Clara e Francisco, logo deve ser a dinâmica de toda alma franciscana.
Em louvor de Cristo, amém.
Ir. Maria Celina da Sagrada Família, OSC
edição 387- Revista Paz e Bem _O.F.S