Paróquia São Francisco de Assis

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Clara de Assis, mulher forte e servidora, por causa do Evangelho

                                                                                                                 Frei Sandro Roberto da Costa, ofm

 

Introdução

Conhecemos bem o processo que levou a jovem Clara de Assis a abandonar a família e juntar-se à fraternidade de Francisco de Assis. Podemos, no entanto, apenas intuir todo o sentimento e estado de espírito que a dominavam quando, de modo tão arrojado e dramático, subverteu regras e valores considerados imutáveis, solidamente arraigados no corpo da sociedade medieval, principalmente em relação à mulher das classes mais elevadas. A atitude de Clara de enfrentar tudo e todos e juntar-se à fraternitas franciscana é explicada única e exclusivamente por seu amor ao Evangelho. E é sempre a partir desta perspectiva que devemos interpretar toda sua vida, a renúncia aos privilégios e à segurança, sua relação com a família, sua luta pela vivência da pobreza absoluta, sua relação com a hierarquia eclesiástica.

O exemplo de Francisco de Assis, seu atribulado processo de conversão, que causou um tremendo escândalo na Assis dos nobres e ricos, foi o estopim que fez acender na filha de Ortolana toda uma força reprimida, toda uma potencialidade que, uma vez liberada, não pôde mais ser contida. Explica-se, a partir desta liberação de forças interiores, o vigor e a resistência na defesa de princípios que, em sintonia com a inspiração que movia o Poverello, a jovem abadessa considerava irrenunciáveis. Destaque-se entre eles, o Privilégio da Pobreza, pelo qual lutou tenazmente até o fim, mas também o novo modelo de relação entre as  irmãs, fundamentado na fraternidade e no amor serviçal.

 

O protagonismo de Clara numa sociedade patriarcal

A Idade Média é dominada pela figura do homem. O sexo feminino é frágil e dependente, deve ser tutelado, protegido e vigiado pelos homens. Mesmo assim, algumas mulheres conseguem se desvincular da tutela masculina, e ocupam lugar de destaque na sociedade. No fervilhar dos movimentos religiosos que surgiram entre os séculos XI e XII, a presença feminina é marcante, seja nos movimentos ortodoxos, aprovados e aceitos pela Igreja, seja nos movimentos heréticos. Cátaros, valdenses, albigenses, ofereciam uma possibilidade de ascensão e dignidade, principalmente àquelas de origens mais humildes. Mas, no geral, ao “sexo frágil” tocava o papel de mãe e educadora dos filhos, submissa ao pai, aos tios, aos irmãos mais velhos, ao marido e à Igreja. Nesse sentido, chama a atenção a autonomia e o espírito de liderança de Clara.

A filha de Ortolana teve uma boa educação. Moça nobre, recebeu em casa, com a mãe e as mulheres da família, a primeira formação, certamente visando adquirir as habilidades próprias de uma dama da alta classe, que lhe facilitariam um bom matrimônio. Clara também aprendeu a ler e a escrever, e aprendeu latim, que dominava melhor que Francisco. As universidades estavam apenas começando a se espalhar pela Europa, e eram reservadas aos homens. Dos seus escritos emerge uma mulher com uma capacidade intelectual acima da média, capaz de convencer, de arrebatar, com uma vontade férrea, que não se dobrava a  argumentos que não fossem suficientemente convincentes. Ainda hoje, quando lemos suas cartas, regra e outros documentos, ficamos admirados por sua capacidade de reflexão, pela riqueza de imagens e exemplos a que recorre, pela profunda espiritualidade, clareza e objetividade de suas ideias. Esta atitude decidida vai possibilitar que sua Ordem resista a todas as investidas para que se enquadrasse no modo tradicional de vida religiosa de então, mantendo-a fiel à herança espiritual recebida de Francisco de Assis, até os dias de hoje.

As relações de Clara não se resumiam às irmãs que com ele viviam dentro das paredes da clausura, mas estendia-se para além, a personagens importantes da sociedade, como Inês de Praga, ou personagens célebres da Ordem, que a visitavam no mosteiro, celebravam e pregavam para as irmãs, e até o próprio pontífice, a quem resistiu abertamente quando este lhe propôs dispensar dos votos para poder adquirir bens, e com quem insistiu até o fim da vida para ter o Privilégio aprovado.

 

O relacionamento de Clara com as irmãs: mãe e servidora

A influência que a “Plantinha de Francisco” exercia sobre suas irmãs e sobre as pessoas que entravam em contato com ela provinha de sua opção fundamental no seguimento do Evangelho, na altíssima e santa pobreza, a exemplo de Francisco de Assis. Esta era a fonte da autoridade e da sua capacidade de convencimento. Não nos cabe aqui fazer um estudo aprofundado dos seus escritos, de suas ideias ou dos testemunhos contemporâneos. Mas em todas as suas cartas e escritos encontramos referência ao seguimento do Cristo pobre, à vivência da vida de absoluta pobreza, e do seguimento do exemplo de vida de Francisco de Assis. Clara tinha absoluta convicção de que estes eram os pontos basilares de sua vida e deveria ser também o de suas irmãs. Na verdade, não eram realidades distintas, separadas umas das outras. Uma completava a outra. A identidade da vida de uma “dama pobre” se dava na busca da fidelidade a estas três realidades.

Os testemunhos contemporâneos deixam entrever, lado a lado, a imagem de uma mulher cheia de ternura, de profunda espiritualidade, de cuidado com os pobres, de solicitude e cortesia para com as irmãs, mas, ao mesmo tempo, decidida e cheia de inciativa. Refiro-me aqui aos testemunhos tomados para o processo de canonização. Transparece, nas entrelinhas, toda a singeleza de vida no cotidiano do mosteiro, mas também a imagem de alguém que, mesmo antes de assumir definitivamente aquele estilo de vida, sabia o que queria, e do qual não abria mão por nada nesse mundo. Quando tomou a decisão definitiva de juntar-se aos “Penitentes de Assis”, a jovem Clara tinha pouco mais de 18 anos, embora estivesse em contato com o Pobrezinho de Assis já há alguns anos, através de seu primo Rufino, um dos primeiros membros da fraternidade. Os colóquios escondidos com Francisco, a ajuda aos pobres, o dinheiro enviado para a reconstrução da Porciúncula, o episódio da herança, que recusou vender aos parentes, que queriam pagar muito mais do que qualquer outro, revelam uma personalidade forte, que tinha vontade própria, já desde a mais tenra idade.

O estilo de vida desejado e encetado pelas irmãs de São Damião era total e absolutamente inspirado no estilo de vida que Francisco tinha empostado para si e seus frades. Mas, principalmente a partir do momento em que aquela fraternitas se torna uma Ordem, limitações surgem, e adaptações teriam que ser feitas. Clara e suas primeiras irmãs fizeram a profissão nas mãos de Francisco, ingressando, a pleno título, na fraternitas primitiva, que passava, assim a constituir-se de irmãos e irmãs. No entanto, às mulheres que optavam pela vida religiosa na Igreja não havia outra opção que ater-se aos estilos tradicionais já existentes, principalmente cistercienses e beneditinas, de vida de clausura. Apesar das contingências políticas, sociais e eclesiais impostas pela sociedade medieval, Clara conseguiu, como Francisco, propor e fazer frutificar um novo estilo de vida religiosa feminina. Ela é a primeira mulher a escrever uma Regra religiosa para suas co-irmãs, além de trazer a novidade absoluta do Privilégio da Pobreza. ARegra Não Bulada(1221) vai proibir o ingresso de irmãs na Ordem.

Em relação à Regra, Clara oferece algo novo. Poderia simplesmente ter aceito a Regra Beneditina, seguida por tantas mulheres de seu tempo, e que permitiram também, a muitas delas, seguirem o caminho da santidade. A Regra de Bento não é aceita não porque não fosse uma boa regra, mas porque, para a nova fraternidade, a referência é o seguimento do Evangelho do modo como o fez Francisco de Assis. Na Regra de Bento o Abade (ou a Abadessa), tem o poder absoluto sobre o religioso ou religiosa, inclusive de punição corporal. Nesse sentido, Clara se recusa a ser a “abadessa” das irmãs (Legenda de Santa Clara, 12, 3).A princípio queria ser uma entre as demais. Só por insistência do próprio Francisco, ela aceita ser a “superiora” da nova fundação (Processo de Canonização, I, 6, Fontes Franciscanas e Clarianas, 1830). Nas quatro cartas endereçadas a Inês de Praga, ela nunca denomina-se “abadessa”, mas intitula-se sempre “serva inútil”. Como transparece nos vários testemunhos sobre ela e nos seus próprios escritos, a relação entre as irmãs é sempre de fraternidade, de cortesia, nunca de superioridade, de mando. No seu Testamento, no Capítulo 61, Clara expressa o modo como deveria agir a abadessa: “… que trate de estar à frente mais por virtude…”. A autoridade da vida e do exemplo se sobrepõe ao cargo e ao status. Na sua Forma de Vida ela pede que a abadessa esteja à frente das irmãs “mais pelas virtudes e bons costumes do que pelo cargo, para que estimuladas por seu exemplo, as Irmãs lhe obedeçam mais por amor que por temor” (Forma de Vida, IV, 10; Fontes Franciscanas e Clarianas, 1717).

Os relatos do Processo de canonização nos mostram uma mulher constantemente atenta ao cuidado e bem estar de cada membro da fraternidade. Desde os serviços mais simples e humildes, como limpar os sanitários das irmãs doentes, lavar os pés de outras, servi-las à mesa, ou ocupar-se de alguma atividade útil, como costurar corporais para as igrejas de Assis. Clara guia a fraternidade mais pelo exemplo de vida do que com palavras, mais com gestos concretos do que com admoestações e conselhos. Segundo o espírito de Clara, a superiora é, ao mesmo tempo, abadessa e mãe (Forma de Vida, IV, 7, Testamento 63). É um serviço que gera simpatia, empatia, coesão, persuasão.

O Privilégio da Pobreza é outro aspecto fundamental desta “novidade” trazida por Clara, na busca de seguir à risca o ideal de Francisco de Assis. A posse de bens às irmãs que viviam nos mosteiros tradicionais era uma forma de dar segurança e autonomia às religiosas, livrando-as do controle ou da ingerência dos leigos, dos nobres e ricos. As religiosas faziam o voto de pobreza, e vivam de fato esta vida. Mas os mosteiros maiores e mais antigos eram, em geral, muito ricos, devido aos dotes levados pelas mulheres que neles ingressavam. Havia a tradição de reis, rainhas e nobres, de deixarem em herança grandes fortunas, pecuniárias e de terras, para que as religiosas (e religiosos) rezassem pela salvação de suas almas e de seus parentes. Alguns mosteiros exerciam a função de “bancos”, que guardavam os bens de famílias ricas. Em alguns deles as irmãs podiam, individualmente, ter posses e bens, criando-se assim, dentro de uma mesma comunidade religiosa, uma odiosa hierarquia, entre as que possuíam bens e as que não possuíam, ou possuíam menos. Clara denomina-se “Irmã pobre”, e quer que suas irmãs sejam conhecidas por esse nome, como está explícito na sua Regra. Francisco as chama de “Poverelle” (Pobrezinhas), no Cântico a elas endereçado no fim da vida, “Audite Poverelle”.

O pedido de Clara, de “ter o direito de não ter direitos” causou estupor em Roma. De um certo modo, não era apenas uma novidade, mas invertia totalmente os princípios que permitiam a uma instituição religiosa feminina existir com segurança e comodidade. Mas também aqui, na insistência pelo Privilégio da Pobreza, revela-se aquilo que era essencial para Clara e suas irmãs: viver neste mundo totalmente despojadas de segurança, de bem-estar, de privilégios: viver única e exclusivamente por Cristo, e como Ele, pobre, humilde. Ele é a única segurança, nele e na imitação de seu modo de ser, está todo o sentido da existência, de tal modo que a posse dos bens se torna obsoleta. E a rejeição em comum dos bens, por todas as irmãs que professam a Regra, faz de todas elas irmãs de fato uma das outras, irmanadas na única certeza que pode lhes dar segurança, conforto e esperança: Jesus Cristo.

Conclusão: Vivemos na época do predomínio da vontade. Toda autoridade é colocada em questão. “Obedecer”, hoje, tornou-se um verbo obsoleto, limitador, sem sentido, quase desumanizador. Como aprender de Clara o exercício sadio da autoridade, da relação entre “superior” e “súdito”, de modo que ambos cresçam e se realizem mutuamente? Por outro lado, testemunhamos nas últimas décadas a crescente participação feminina em praticamente todos os setores da sociedade. Paradoxalmente, em pleno século XXI ainda se discute sobre a dignidade da mulher. A discussão sobre a “questão de gênero” ainda é um tabu em amplos setores, aumentam os tristes casos de “feminicídio”, e até de discriminação da mulher em alguns setores, inclusive na Igreja, pelo simples fato de serem mulheres.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                             Ao que aprendeu de Francisco, Clara trata suas irmãs como iguais. Não há, no mosteiro, maiores e menores. O Evangelho e o amor ao próximo irmanam a todos. Este é o grande sinal de que precisamos hoje: uma sociedade que redescubra o valor da fraternidade, do respeito ao outro, da comum irmandade não só entre os seres humanos, mas entre todas as criaturas, como bem viveu e ensinou Francisco de Assis, e como bem viveu e defendeu em toda sua vida a “Plantinha de Francisco”, Clara de Assis.

 

Bibliografia: Fontes Franciscanas e Clarianas, Tradução de Celso Márcio Teixeira, Vozes, Petrópolis 2004.

Texto extraído da Revista Paz e Bem jul/ago-2019

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