Paróquia São Francisco de Assis

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Palavra do Paroco › 13/08/2020

Nem tudo está perdido

Não precisa ninguém dizer que a pandemia ainda não passou. Porém, aos poucos, tomando as medidas recomendadas pelas autoridades, parece que as pessoas vão retomando, ao menos em parte, sua rotina.

Muitos de nós já ouvimos falar ou mesmo falamos, quem sabe muitas vezes, ao longo desses meses tão diferentes, que o ano de 2020 está sendo um ano perdido. Depende do ponto de vista. Para o comércio e a economia, talvez seja mesmo um ano perdido. Humanamente, talvez esteja sendo um ano bastante rico, pois raras ocasiões nos forçam ao confronto conosco mesmos como esse tempo tem feito.

Se, antes, buscar o virtual podia significar uma quase fuga do real, no tempo de pandemia o virtual se tornou um caminho necessário e desejável, para podermos nos aproximar das pessoas queridas.

Tivemos que aprender a lidar com o repetitivo de nossos espaços e das pessoas de nossas famílias. Tudo isso foi desafiador. Alguns talvez quase surtaram! Tudo isso mostra confronto, novidade. Chegando ao limite de nós mesmos, de nossas emoções, medos, foi-nos dada oportunidade de nos conhecer um pouco melhor.

Para o cristão, esse período não deixou de ser um tempo propício para a santificação. O Papa Francisco aponta na exortação apostólica Gaudete et Exultate – sobre o chamado à santidade no mundo atual – três características desta busca: a. suportação, b. paciência e c. mansidão.

Para o primeiro ponto, é necessário permanecer em Deus, centrado e firme. A partir da firmeza interior da pessoa que está centrada em Deus, é capaz de suportar as contrariedades da vida e até mesmo as agressões dos outros: “se Deus é por nós, quem será contra nós” (Rm 8,31) – lembra o Pontífice.

Da solidez interior, neste mundo acelerado e agressivo, pode brotar um testemunho de “paciência e constância no bem”. Francisco lembra Paulo aos cristãos de Roma, que os exortava a não pagar a ninguém o mal com o mal (Rm 12, 17), nem a deixar-se vencer pelo mal, mas vencer o mal com o bem (Rm 12, 21). Ao contrário do que muitos podem pensar, tal atitude não é para os fracos ou sinal de fraqueza, mas de verdadeira força, porque o próprio Deus “é lento para a ira e muito poderoso” (Na 1, 3).

A mansidão também é uma característica de quem busca seu sustento na fé. O Pontífice lembra que pode ocorrer que os cristãos façam parte de redes de violência verbal através da internet. Mesmo em sites ou publicações que se dizem católicas, é possível ultrapassar os limites, chegando à tolerância de calúnias e difamações, desconsiderando a importância de ética e respeito pela boa fama alheia. Nas redes, alguém pode dizer coisas que não seriam toleráveis na vida pública, procurando compensar as próprias insatisfações descarregando sobre os outros, através dos meios virtuais, os desejos secretos de ódio e vingança. Em nome da defesa de algum mandamento que alguém pode julgar muito importante, em hipótese alguma, se pode olvidar o oitavo mandamento “não levantar falso testemunho”.

É preciso colocar humanidade, misericórdia e empatia na rede. Parece que está cada vez mais difícil pensar um pouco a partir do lugar do outro, perguntando, para mim mesmo, porque o outro pensa dessa maneira, com essa visão da vida, da fé, da política, etc. Todos ganharíamos mais, se deixássemos de interpretar o outro simplesmente como adversário e passássemos a entendê-lo como um ser que possui necessidades e, apesar de termos visões diversas sobre muitos aspectos, não somos adversários, apenas diferentes e, acima de tudo, irmãos.

A religião deve tornar as pessoas mais humanas. A fé deve fazer-nos corajosos, otimistas e realistas num mundo impregnado de desconfiança e medo.

Desejamos a você muita fé e que, a cada dia, você e eu nos tornemos um humano com mais fé em Deus e fé na humanidade.

Frei Valdecir Schwambach, OFM

São Paulo, agosto de 2020.

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