Paróquia São Francisco de Assis

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Palavra do Paroco › 13/05/2020

O HOMEM QUE SE ACHAVA DEUS

Quando começamos a escrever algo, geralmente o título é a última coisa que damos ao texto escrito. Contudo, desde que começamos a viver estes tempos de distanciamento social, o título que escolhi para este breve texto me vinha à mente quase em forma de mantra.

Você certamente já ouviu muita gente da mídia falar que sairemos diferentes de como entramos na pandemia. Que deveremos repensar nosso estilo de vida, nossos comportamentos, nossa maneira de nos relacionar com as pessoas e, de modo especial, com a natureza. Por falar em natureza, parece que ela está respirando mais aliviada: o ar está mais puro, os rios mais limpos. Em algumas cidades, as águas dos canais estão mais limpas e a vida aquática parece ter dado sinais de reaparecimento. De repente, nota-se que a natureza está aí, viva.

Flávio Dieguez, num artigo para a Revista Super Interessante, em outubro de 2016, lembrava que o ser humano sempre sofreu de uma espécie de síndrome de Narciso. Como se tudo, antes do homem, fosse uma espécie de ensaio e então o ser humano seria o ser mais perfeito, o centro e o fim de todo o universo. Ao que parece, é aí que exatamente nos enganamos. Dieguez lembra que o ser humano tem, com o planeta Terra, um tipo de comportamento semelhante ao do vírus, quando instalado no corpo humano, ou num outro ser vivo. Segundo lembra, o vírus se distingue dos demais microorganismos por possuir um comportamento autodestrutivo. Para se multiplicar, ele ataca às cegas o organismo e acaba destruindo os próprios meios de multiplicação. O aparente “sucesso” do vírus, acaba sendo um tipo de suicídio, pois elimina seu hospedeiro e ele mesmo morre.

Ao escrever estas linhas, não passe na cabeça de alguém que possamos ignorar a necessidade de sempre e cada vez mais progredirmos. Contudo, não deveríamos olvidar que o progresso traz consequências e, nesta tensão, precisamos nos entender cada vez mais, como hóspedes da Terra, organismo vivo, para que não façamos como um vírus que, ao hospedar-se, ataca e se destrói-se, por fim, a si mesmo.

No primeiro livro da Sagrada Escritura, o livro do Gênesis (livro da origem), o autor, com o olhar da fé, interpreta a criação como fruto da bondade de um Deus que, não cabendo em si, cria, orna tudo de beleza, harmonia e ao criar cada coisa, conclui que “tudo era bom” (cf. Gn 1, 14-18); isto é, cada ser que criou, ao precisar das demais criaturas e elementos, é dependente e ao mesmo tempo, carrega uma completude em si mesmo. Cada criatura, ao mesmo tempo em que foi inserida dentro de um “círculo” maior, dependente das demais, paradoxalmente, carrega em si, uma certa autonomia, ou seja, traz em si a mesma finalidade de estar no mundo, foi querida por um Criador, por isso aí está.

Pensar desta forma, ajuda o ser humano a despertar do sono da ilusão que o levou por tantos séculos a entender-se como sendo um tipo de obra intocável, plenamente perfeita e acabada, tal como um Davi de Michelangelo, que não comporta retoques, por ser entendida como uma obra de arte perfeita. Os outros elementos e as demais criaturas do universo não foram “rascunhos” de Deus, ou ensaios e o humano a obra perfeita, acabada. Como já aludido, cada criatura goza de um sentido por si só e, ao mesmo tempo, está integrada numa infinita “sinfonia” de mútua interdependência.

Poderemos sair diferentes, sim, desse período de distanciamento, ou quarentena, como queiram, à medida que nos convencermos de que não somos menos, nem mais, nem piores, nem melhores do que nada que aí está. Somos interdependentes e nos dói constatar que, talvez sem a espécie humana, o planeta viveria até melhor.

Francisco de Assis, santo da Idade Média, que viveu séculos antes do homem moderno e pós-moderno, entendeu o valor de cada criatura, quando louvava a Deus pelos elementos: o sol, o ar, a água, etc. Cada criatura era digna de ser cuidada e reverenciada, porque trazia em si a beleza Daquele que as criara.

Para o escritor francês Paul Sabatier, a profunda pobreza de São Francisco consistiu em entender e saber deixar cada criatura ser o que era. É como se Francisco nos dissesse que quando simplesmente usamos das coisas criadas indiscriminadamente e ainda, sem sermos agradecidos, no fundo, é porque nos sentimos senhores, senhoras, colonizadores das outras criaturas, nos esquecendo, por fim, que também somos criaturas frágeis, jamais deuses.

No relato mítico do Gênesis, a expulsão do ser humano do paraíso (realidade da plena harmonia, fluência de tudo), deu-se quando o humano quis ser deus. Parece-me que este período que estamos vivendo mostra, para nós que, tais como Adão e Eva, parcela de cada um de nós, de certa forma também experimentamos o amargor de ter sido expulsos do paraíso. Precisamos reinventar o mundo, a vida; olhar para o lado e vermos que não estamos sós.

Oxalá este período desperte em nós humildade para sabermos o quanto somos frágeis, que a vida biológica em nós morre. Que este momento nos ajude a estar atentos aos fanatismos, aos donos da verdade, aos que não aceitam as diferenças, aos que entendem os adversários como inimigos a serem exterminados. Ninguém está acima de ninguém. Ao rezarmos: “O Senhor esteja convosco”, respondemos: “Ele está no meio de nós”, Deus quis ainda, viver em nosso meio em seu Filho Jesus, divino e humano, para unir e jamais separar.

Esse vírus cruzou continentes, oceanos, pulou por cima de muros, de muralhas, não conhece barreiras. É um vírus transterritorial e escancarou nossas diferenças sociais, certamente, mas colocou bem à vista de nossos olhos, o quanto nossa humanidade não pode mais dar as costas àquilo que ela é. Somos todos da espécie humana e precisamos uns dos outros.

 

Frei Valdecir Schwambach, ofm

São Paulo (SP), 13/05/2020

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