Paróquia São Francisco de Assis

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Palavra do Paroco › 04/01/2020

Solenidade da Santa Mãe de Deus, Maria

Queridos paroquianos,

Chegamos ao dia 31 de dezembro, e aqui nos encontramos para agradecer a Deus os dons que ele nos concedeu ao longo deste ano que está para findar. Daqui a algumas horas, talvez todos iremos contemplar, senão, participar das queimas de fogos de artifícios, abriremos espumantes, abraçaremos as pessoas que estiverem próximas a nós. Ao longo do dia de hoje e seguiremos pelos próximos dias, a enviar, via redes sociais, mensagens desejosas de felicidades a todos nossos amigos de perto ou de longe. Nestes dias de fim de ano, parece que mais do que nunca nos damos conta de que estamos todos interconectados e juntos, haveremos de atravessar as fronteiras de um ano que finda, deixando o que dizemos “velho” para trás, e com uma dose de entusiasmo, comemorarmos o ano “novo” que finalmente chega.

A Palavra de Deus hoje nos dada na mesa da Palavra, foi tirada do Livro de Números, capítulo 6, 22-27. A conhecida benção de Aarão vem mostrar a nós, povo de Deus, que Deus tem um rosto, um olhar e oferece ao seu povo, a sua paz. Nas sagradas escrituras, o levantar, ou mostrar a face, é um gesto favorável, conforme se lê no salmo “Eis que os olhos do Senhor estão sobre aqueles que o amam, para os que esperam em seu amor” (Sl 33, 18). Nos tempos de angústia, acreditava-se que Deus tinha escondido sua face e abandonado seu povo.

Contudo, o que a Palavra de hoje nos revela é que Deus oferece, através da benção, alguns elementos essenciais para a vida do ser humano: 1º elemento, a segurança: “O Senhor te abençoe e te guarde”. Todos queremos nos sentir seguros e protegidos. Guardar alguma coisa, é olhar para aquilo com carinho. Acreditamos que Deus nos guarda porque ele nos olha com carinho de pai e de mãe. Algumas pessoas fazem a experiência de se sentirem abandonadas, inclusive por Deus. O profeta Isaías, no entanto, nos lembra: “Acaso uma mulher esquece o seu filho pequeno, ou o amor ao filho de suas entranhas? Mesmo que alguma se esqueça, eu de ti jamais me esquecerei! Vê que escrevi teu nome na palma de minha mão, tenho sempre tuas muralhas diante dos olhos” (Is 49, 15-16). Antes que alguém possa preocupar-se sobre o que os adivinhos irão dizer para o ano novo, vale lembrar que Deus já pensou em você, antes mesmo de você ter nascido.

2º elemento: O Senhor nos concede a sua misericórdia. “O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face, e se compadeça de ti”. A face de Deus brilha sobre os seus filhos e filhas concedendo a todos, a luz. Mais tarde, o próprio Cristo se manifestará como a luz do mundo. A luz que a face de Deus projeta sobre seus filhos, pode lhes conferir consciência de serem todos, continuamente, alvos prediletos da misericórdia e da ternura de Deus. Deus não ama as pessoas porque essas possam se julgar boas. Deus ama a todos porque a essência de Deus é o amor. Deus não pode não amar alguém, porque como Diz o apóstolo “Deus é amor”.

A face de Deus se volta favorável a nós. Deus tem um rosto, e este rosto é o rosto do menino Jesus. O salmista cantava pedindo que a “face de Deus resplandeça sobre nós”. Em tempos atuais em que as agressões muitas vezes são disseminadas através de notícias falsas, chamadas de fake News, em que as pessoas não conseguem mais discordar umas das outras sem partir para agressões, xingamentos e ofensas de variadas formas, saber mostrar o rosto é quase um ato de coragem. É dizer que se está disposto a viver a dinâmica do falar e do ouvir, é mostrar sua própria identidade; é tantas vezes, saber dar a cara a tapa, é saber ou ao menos tentar “dar a outra face”, mostrar o outro lado da moeda.

Na vida que segue, no ano que iniciaremos, provavelmente em muitas ocasiões seremos provocados a mostrar o nosso rosto favorável. Favorável para ouvir, para falar, mediar conflitos, apaziguar quem sabe; favorável para querer recomeçar, saber relevar, dar aquela chance necessária.

Como nos ensina o Papa Francisco, ao falar para as famílias, e aqui me perdoem a adaptação, precisaremos mostrar nosso rosto favorável a sermos próximos uns dos outros, tendo em vista que a indiferença é uma crueldade, favorável sendo dóceis, menos exigentes com a vida, mais agradecidos, mais brandos nas palavras, não disseminando ódio, preconceitos, violência; sendo firme, isto é, veja o que é bom, necessário, construtivo, edificante e o que não o for, deixe de lado. A firmeza é uma qualidade para dar consistência aos propósitos que fazemos a nós mesmos.

3º elemento: A paz! “O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz”. Talvez nunca se falou tanto em paz como nos dias de hoje. Temos ouvido com frequência lideranças falando de paz e simultaneamente promovendo discursos de ódio, violência e todo tipo de intolerância. Até falam de paz, mas o que promovem, é a guerra, uma espécie de “todos contra todos”, violando as regras mínimas do bom senso, agindo, não segundo a reta razão, mas segundo suas paixões individuais, promovendo, um estado de guerra generalizado, de perseguição em que facilmente as pessoas podem ser classificadas, segundo critérios extremamente subjetivistas, de boas ou más. No sermão das Bem-aventuranças, Jesus dirá que são bem aventurados aqueles que promovem a paz (cf. Mt 5,9). Discursos que promovem qualquer tipo de ódio é incompatível com a pessoa de Jesus.

Em sua mensagem para Dia Mundial da Paz – 1º de janeiro de 2020, o Papa Francisco alerta que “A nossa comunidade humana traz, na memória e na carne, os sinais das guerras e conflitos que têm vindo a suceder-se, com crescente capacidade destruidora, afetando especialmente os mais pobres e frágeis. Há nações inteiras que não conseguem libertar-se das cadeias de exploração e corrupção que alimentam ódios e violências. A muitos homens e mulheres, crianças e idosos, ainda hoje se nega a dignidade, a integridade física, a liberdade – incluindo a liberdade religiosa –, a solidariedade comunitária, a esperança no futuro. Inúmeras vítimas inocentes carregam sobre si o tormento da humilhação e da exclusão, do luto e da injustiça, se não mesmo os traumas resultantes da opressão sistemática contra o seu povo e os seus entes queridos”. O papa ainda lembra que na maior parte das vezes, a guerra começa pelo fato de não se suportar a diversidade do outro, que fomenta o desejo de posse e a vontade de domínio.

A profecia de Isaías parece estar distante quando fala de um povo que até então se armava para a guerra: “De suas espadas fabricarão enxadas, e de suas lanças farão foices. Nenhuma nação pegará em armas contra a outra, e ninguém mais vai se treinar para a guerra” (Is 2, 4).

No Evangelho de Lucas que ouvimos a pouco, os pastores foram às pressas a Belém. Provavelmente foram às pressas porque quando se ouve uma boa notícia, há pressa em verificar se aquilo é verdade (se alguém acertar a mega da virada, terá muita pressa em conferir se é verdade!). Os pastores representam todos aqueles e aquelas que ao longo do ano, ao invés de receberem notícias boas, receberam notícias difíceis, pesadas e tristes. Por isso, logo ao anúncio, foram conferir se o anúncio procedia, e encontraram tudo conforme o anjo havia anunciado. O coração deles se enche de alegria, e tornam-se também anunciadores do que haviam testemunhado com seus olhos.

O evangelista relata que Maria, a mãe de Jesus, guardava todos os fatos e meditava sobre eles em seu coração. Dizemos, comumente, que aquilo que é importante, guardamos no coração. O coração é símbolo do lugar dentro de nós onde os fatos, experiências e emoções são decantadas, purificadas e integradas na vida. Maria não foi Mãe de Deus por um sim isolado em sua vida, mas seu coração, sua história por inteira foi casa onde Deus encontrou sempre lugar para morar.

A Maria e José é dada a missão de colocar no menino, o nome de Jesus. Dar nome, é conferir identidade é abrir espaço na vida e no coração para aquele que já chegou ou irá chegar.

Queridos paroquianos, estamos às portas de um novo ano. Sabemos que o que efetivamente irá mudar daqui a pouco, são alguns dígitos nos relógios e nos calendários. Na vida, não precisamos nem dizer que nada muda na rapidez de um passe de mágica. Oxalá existissem receitas rápidas para muitas coisas que gostaríamos que mudassem rapidamente para melhor, mas tudo que queremos, envolve renúncia, esforço e perseverança.

Contamos sim, com as bênçãos de Deus! A maior benção é saber que Deus já mora dentro de nós, dentro do mundo. A benção sobre a qual o livro dos Números nos falou, não trata de algo de fora para dentro, do exterior ao interior, mas o Deus que habita dentro de cada humana criatura, acolhe a paz, a misericórdia, o perdão e abre-se para todos os que nos são diferentes, o meu irmão, a minha irmã e todas as demais criaturas. Benção é tantas vezes perceber quem está ao nosso lado ao longo do ano nos ajudando, nos fortalecendo, incentivando e dizendo “vai em frente”, “vai dar certo, não desanime”.

A benção de Deus ao longo deste ano se deu em cada criança que nasceu, em cada reunião de família em que o diálogo e a escuta foram possíveis, quando você visitou a pessoa que estava doente, o idoso que se sentia sozinho. Você foi benção quando estendeu a mão e acariciou o filho quando ele estava triste, foi benção quando sorriu, quando brincou, quando remoçou corações em momentos de tensões. Foi benção quando se interessou pelos seus na escola, na catequese, quando deu um beijo no pequeno, na esposa, no marido antes de dormir.

Queremos agradecer você que esteve trazendo a benção para a nossa paróquia e levando a benção para sua casa ao longo deste ano. Agradecemos nossas pastorais, equipes de trabalho, voluntários, colaboradores, dizimistas, benfeitores. Todos benção de Deus!

Desejamos com as bênçãos de Deus, aquilo que o poeta Carlos Drummond de Andrade sonhou, com uma canção capaz de despertar para o melhor as consciências dos adultos e embalar em sonhos numa cantiga de ninar, as crianças:

 

 

Eu preparo uma canção
Em que minha mãe se reconheça
Todas as mães se reconheçam
E que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
Que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
E saúdo velhos amigos.

Eu distribuo segredos
Como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
Dois caminhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
Formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
E tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
Que faça acordar os homens
E adormecer as crianças.

Frei Valdecir Schwambach, OFM
Homilia da Missa da Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, 31.12.2019

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