“Bendizei ao Senhor, todas as suas obras” (Salmo 103, 22).
O Papa Francisco escolhe como o início de sua encíclica Laudato Si’ a poesia do Cântico do Irmão Sol.
Então, permito-me convidá-lo a seguir um trecho do caminho espiritual de São Francisco.
São Francisco compõe o Cântico depois de uma noite passada entre os espasmos, causados por um câncer ósseo, que em poucos meses o levará à morte, e os sofrimentos que alguns dos irmãos que Deus lhe deu lhe causaram.
Então nasce de seu coração a outra grande oração de louvor: Vós sois ternura, Vós sois bondade, Vos sois toda a nossa alegria, Admirável, Altíssimo Bom Senhor … 
Francisco substitui a beleza medieval, reservada apenas aos poderosos, pela beleza dos últimos, ao tocar e beijar o leproso. Essa oração, composta na montanha de La Verna, nos diz que o Deus de Francisco não é mais um Deus guerreiro, mas o Deus sofredor, o Deus que padece e tem pena da dor do ser humano, ferido pela mortalidade.
Inebriado pelo encontro com o Deus da ternura, Francisco está pronto para louvar o Senhor em todos os momentos. Não há nuvens que possam obscurecer a dignidade da pessoa, prodígio de Deus; não há nuvens que ofusquem o valor da vida, maravilha de Deus; ou nuvens que ameaçam o dom dos irmãos, que o perdão pode fazer resplandecer. Sim, porque para Francisco a beleza não é uma questão de estética, mas de amor, de fraternidade a todo custo, de graças a todo custo. ” Laudato si’, mi’ Signore, per frate vento et per aere et nubilo et sereno et onne tempo“. Vós sois beleza!
Conhecer o Bem Supremo, reconhecer os benefícios e restituir ao Bem Supremo o louvor (conhecer, reconhecer e restituir) são os verbos que marcam o ritmo da jornada espiritual de São Francisco de Assis. O Deus conhecido por Francisco é o todo: Deus meu e meu tudo. Deus et Omnia, é repetido por Francisco nos Louvores de Deus Altíssimo, Deus “tudo em todos” (1 Coríntios 15, 28).
A experiência da totalidade de Deus, de sua bondade em tudo, em todas as coisas, representa a amplitude e extensão de sua visão da realidade, que só pode incluir tudo em Deus e Deus em todas as criaturas: em toda obra elogia o Criador. Tudo o que ele encontra nas criaturas o refere ao Criador. Exulta de alegria em todas as obras que saíram das mãos do Senhor e, através dessa visão alegre, intui a causa e a razão que lhes dá vida.
Nas coisas belas, ele reconhece a Suma Beleza, e de tudo o que é bom para Francisco, o grito se eleva: “Quem nos criou é infinitamente bom!” Através das pegadas deixadas pelo Bem Supremo na natureza, São Francisco segue o Amado em todos os lugares e faz de cada coisa uma escada para alcançar seu trono. Abraça todos os seres criados com um amor e devoção nunca ouvidos antes, falando a eles do Senhor e exortando-os ao seu louvor. Assim, Francisco se torna o inventor do sentimento medieval em relação à natureza.
Tendo reconhecido Deus em todas as coisas, Francisco se sente levado à restituição. Ao Criador a glória que lhe corresponde como artífice da beleza. O louvor representa, assim, o movimento de restituição.
Se para São Francisco o pecado é uma apropriação não apenas da vontade, mas também das coisas boas que o Senhor opera no ser humano, o louvor, ao contrário, é restituição. O ser humano não pode louvar a Deus como se deve, dado que com o pecado feriu sua filiação.
O louvor a Deus, aquele a quem realmente corresponde, não poderia ser adequadamente elevado pelo homem se as criaturas não viessem em seu auxílio, pois o ser humano, por causa do pecado, não é digno de nomeá-lo.
São Francisco esclarece dizendo que as criaturas, que são suas irmãs, “servem, conhecem e obedecem a seu Criador melhor que você”, porque são as únicas a ter eloquência, autenticidade de palavra e beleza de expressão: o ser humano é tal apenas se reconhece sua própria simplicidade. Se na Regra de São Francisco a indignidade do ser humano pecador é ajudada pelo Filho de Deus, no Cântico as criaturas desempenham o papel de mediação para louvar a Deus. Assim as criaturas do universo preenchem o vazio de um ser humano desprovido, por causa do pecado, de uma voz digna de louvar o Criador “como ele gosta”. 
Francisco refere-se ao Salmo 103, 22: “Bendizei ao Senhor, todas as suas obras”, a Daniel 3, 57 e ao Salmo 19, 1: “Os céus contam a glória de Deus”. Até os adjetivos – belo, radiante, claro, precioso – expressam as qualidades divinas que tornam as criaturas aptas a para ajudar o homem que, tendo pecado, é incapaz de um louvor digno.
Os louvores ao Senhor feitos por São Francisco e que começam com “Altíssimo Todo-Poderoso, Bom Deus”, intitulado Cântico do Irmão Sol, que é a criatura mais bela. De manhã, quando o sol nasce, todo homem deveria louvar a Deus, que criou aquele astro, através da qual nossos olhos são iluminados durante o dia. E ao entardecer, quando a noite cai, todo homem deveria louvar a Deus por aquela outra criatura: frei Focu, através do qual nossos olhos são iluminados durante a noite.
Ele ainda diz: “Somos todos como cegos, e o Senhor nos ilumina os olhos por essas duas criaturas. Para elas e para as outras criaturas que usamos todos os dias, devemos sempre louvar o glorioso Criador”.
São Francisco descobre em Deus o lugar da criação, restitui a criação a Deus, vê Deus em todas as coisas e, por isso, ousa chamá-las de irmãs. Ele é o irmão universal (cf. Laudato si’, n. 11), porque vê em Deus não apenas o Pai de tudo, mas também o Pai de todas as coisas.
Portanto, ele canta:
“Vós sois o santo Senhor e Deus único, que operais maravilhas/ Vós sois o Forte / Vós sois o Grande / Vós sois o Altíssimo / Vós sois o Rei onipotente / santo Pai, Rei do céu e da terra./ Vós sois o Trino e Uno, Senhor e Deus, Bem universal.
Vós sois o Bem, o Bem universal, o sumo Bem, Senhor e Deus, vivo e verdadeiro. / Vós sois a delícia do amor. / Vós sois a Sabedoria. / Vós sois a Humildade. / Vós sois a Paciência / Vós sois a beleza”.
D. Héctor Miguel Cabrejos Vidarte – arcebispo peruano de Trujillo
publicada por L’Osservatore Romano, 21/22-10-2019