Paróquia São Francisco de Assis

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Encarnação no olhar

Hélio da Costa Gouvêa

Fraternidade Santo Antônio dos Pobres -RJ

 

Faz bem pouco tempo que franciscanos e franciscanas de todo o mundo celebraram o Jubileu dos 800 anos do primeiro presépio feito por São Francisco de Assis. Uma encenação que ainda traz consigo algo de inquietante e que até hoje se repete em todos os lares cristãos.

Francisco de Assis que tinha como propósito viver o Evangelho, em tudo e por tudo, é tomado por uma inspiração e decide reviver no vilarejo de Greccio no ano de 1223, a encarnação do Altíssimo, na imagem de um menino nascido no aperto da vida e colocado sobre palhas. É dito que nesse dia, veio gente de muitos lugares e todos estavam com o coração em festa, ficando assim a noite iluminada.

Gostaria de observar a Encarnação, maior mistério de nossa fé, a partir de um olhar cuidadoso sobre algumas palavras que descrevem a narrativa do Presépio de Greccio em Celano (1Cel, 84-86) e buscar compreender a inquietante necessidade do Pobrezinho de Assis em reviver o sublime momento de Belém.

As primeiras palavras inquietantes narradas por Celano são “humildade de sua encarnação” que conjuntamente com “aspiração” e “mais elevado propósito” me faz acreditar que Francisco precisava reviver e lembrar a todos que por ali estivesse a necessidade de ver e sentir com os olhos e com o coração o abandono no qual aquele doce menino nascera. Acredito que alguma coisa estava afligindo Francisco, que desejava mais uma vez na imitação dedicada, atenta e esforçada dos passos de Nosso Senhor Jesus Cristo, reacender em si e em toda a humanidade o olhar misericordioso da encarnação.

Assim, representado nas pessoas comuns da pequena cidade de Greccio, o Menino das Palhas, nasceu novamente entre apertos, num curral, entre o boi e burro e mesmo assim é vivido como um dom. A celebração da Encarnação desse menino é agora sinal sensível e reflexo de Deus no mundo. No presépio de Greccio brilha a humanidade e com ela a divindade de Jesus Cristo. As palavras que formam a frase “e veio o dia da alegria, chegou o tempo da exultação” exalam a esperança dos bosques de Greccio no texto de Celano.

Novas palavras demonstram o zelo dessa ocasião com a apresentação da Encarnação. Um cuidado ainda maior era dedicado às pessoas que compunham o momento. Afinal, todos que ali estavam “prepararam como puderam” aquela ocasião. Sinal de que ninguém ficara de fora e nada era exigido para participar além do “coração em festa”. Francisco não excluiu ninguém daquela visão de Encarnação que desejava demonstrar com seu presépio. Todos, sem exceção, eram convidados e faziam parte do presépio do Menino de Belém que novamente nascia no vale de Rieti.

Foi com o que cada participante contribuiu que se concretizou aquele novo olhar para o Mistério da Encarnação. Todos puderam dar algo de si para compor o presépio e “honraram com simplicidade, louvando a pobreza e recomendando a humildade”. Foram ditas “coisas doces como mel sobre o nascimento do Rei pobre e sobre a pequena cidade de Belém”.

Ao final da narração de Celano, uma lembrança é feita e já naquele tempo sentia-se que os corações, mentes e olhares estavam frios e desatentos sobre o Mistério da Encarnação do Menino Deus. Ele e sua doce humildade haviam sido deixados de lado “porque o menino Jesus estava de fato esquecido em muitos corações”.

Francisco ao recriar e buscar ver com seus próprios olhos o nascimento do Menino, desejava ardentemente focar seu olhar para o que era realmente necessário. Desejava refazer o caminho do que considerou o início do projeto do Altíssimo e Bom Senhor que foi se fazer menino frágil e divinamente humano. Hoje, novamente muitos de nós temos um olhar desfocado sobre o Mistério da Encarnação e sua gratuidade. Um olhar atento ao que diz a narrativa de Celano nos remete ao zelo que Francisco teve ao reconstruir o nascimento de Jesus. A economia das palavras nos remete ao necessário e ao mesmo templo sublime deste mistério.

Assumir a humanidade encarnada, ter como propósito a imitação dedicada aos passos de Jesus, acolher a todos com seus dons, necessidades e possibilidades, celebrar o Rei Pobre com o coração em festa e exalar esperança, exige de nós uma posição firme e um olhar realmente encarnado na vida e nas reais necessidades humanas e ao mesmo tempo contrário a todas as atuais propostas que nos afastam da humanidade assumida pelo Menino do Presépio. Para saber quais são estas propostas, basta fazer como Francisco de Assis, e ter um olhar encarnado na humanidade assumida por Jesus.

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