No ciclo do Natal, a Igreja celebra o mistério pascal de Cristo em suas primeiras manifestações. Nele, ela faz a memória da vinda salvadora do Senhor, da sua manifestação na realidade humana, na contingência e nas contradições da história, na expectativa do novo Natal, de sua vinda definitiva e gloriosa no fim dos tempos. O Advento é um tempo de espera. As comunidades intensificam a vivência da fé na expectativa Daquele que há de vir e na certeza de que ele virá… Esta espera não pode ser passiva e indiferente, como se fosse qualquer um que estivesse para chegar. Na verdade, é a vinda de Quem mais importa. O que virá é Aquele a quem nos foi ordenado amar com toda a nossa força, nosso entendimento e nosso coração. Naturalmente, a nossa vida e a das comunidades, neste tempo, gravita em torno desta espera.
A certeza de que o Filho de Deus virá deve, desde já nos alegrar… O Advento nos põe em atitude de esperar pelo Senhor em dois sentidos: no Natal e na Parusia (final dos tempos). No Natal, celebramos o Senhor, que, na maturidade dos tempos, veio a primeira vez, “revestido da nossa fragilidade”. À medida que percorremos os dias do Advento e nos aproximamos do Natal, a nossa alegria vai aumentando, da mesma forma que uma pessoa vai se iluminando na contemplação do raiar do sol. “E, naquele bendito dia, eis-nos a cantar o Aleluia como expressão da nossa máxima felicidade! Nasceu-nos um menino! Brilhou uma Luz para nós”!
Mas, “revestido de sua glória, ele virá uma segunda vez para conceder-nos, em plenitude, os bens prometidos que hoje vigilantes esperamos”. Quanto à segunda e definitiva vinda de Cristo, não nos é dado saber o dia nem a hora. Também não devemos ficar neuroticamente esperando esta data. É preciso, sim, aspirar por aquele dia, com o mesmo suspiro com que um exilado anseia por sua pátria; e, de outro lado, é preciso paciência e um total abandono à vontade Daquele que virá. A nossa alegria é, então, fazer sua vontade pela prática da justiça e do amor solidário.
Neste tempo de Advento, somos convidados a viver em profunda contemplação e admiração, fé e confiança. É tempo de gestação de novas relações no silêncio do cotidiano da vida. Como José, somos encarregados de proteger as sementes de vida semeadas no ventre fecundo de nossas comunidades, nas organizações populares, entre os jovens e os pequenos. Neste rico tempo litúrgico, conduzidos por grandes figuras bíblicas, como Isaías, João Batista, Maria, José, Isabel, Zacarias… Modelos dos pobres que esperam e confiam nas promessas de Deus, entramos em ritmo mais intenso de espera e esperança, de alegre e cuidadosa vigilância, como uma noiva que se enfeita, ansiosa e feliz, para a chegada do seu amado, como um incansável vigia anseia pelo amanhecer, como a terra seca deseja ardentemente a chuva benfazeja para o germinar das sementes.
Abrindo-nos à contemplação do mistério da encarnação, a liturgia vem ao encontro de nossa busca fundamental. Somos seres de desejo, inacabados, com sonho de ser sempre mais, grávidos da utopia do Reino. O conjunto das celebrações nos mantém acordados e vigilantes, buscando a perfeição, para que as múltiplas vindas do Senhor hoje nos encontrem despojados, confiantes e repletos dos frutos da justiça.