Confesso: escrever este texto foi como tentar captar o som das estrelas ou traduzir
em palavras aquilo que só o silêncio sabe dizer. As ideias vinham e iam, brincando de
esconde-esconde, esperando o momento certo para emergir. Foi nesse jogo de palavras e
pausas que me lembrei de uma história antiga, sobre um acendedor de lampiões. Ele
passava as noites iluminando caminhos que não eram seus, apagando a escuridão com
uma luz que, ao amanhecer, já não era necessária.
Essa imagem se alojou em mim, como se dissesse algo essencial sobre finais e
recomeços. Então, deixo que a história fale…
Na quietude da noite, lá vinha o velho acendedor. Com seu longo caniço e uma
chama tímida, despertava os postes, um a um. Cada lampião aceso era um pequeno
milagre, uma declaração de resistência contra a vastidão do escuro.
As crianças o observavam pelas janelas e juravam que ele conversava com as luzes:
“Hoje está frio, mas você aguenta, não é? Hoje o vento sopra forte, mas confio que você
vai iluminar o caminho.” Para ele, cada chama tinha alma. Pequena, mas teimosa, como
toda esperança. E, mesmo que seus passos fossem miúdos, seu trabalho era imenso.
Porque, no fim, o escuro é vasto, mas a luz… ah, a luz não se entrega.
Na última noite do ano, ele veio como sempre. Mas algo estava diferente. As
pessoas, distraídas por suas preocupações, não notaram o caderno velho que ele carregava
sob o braço. A cada lampião aceso, ele escrevia um desejo e o deixava ali, escondido junto
à luz.
Para um, murmurou: “Que a dona Maria encontre forças para cuidar dos netos,
mesmo quando tudo parecer pesado demais.”
Para outro, sussurrou: “Que o seu João finalmente perdoe o irmão e encontre paz.”
E para mais um: “Que a pequena Ana volte a sonhar grande, apesar de tantas
dificuldades.”
No dia seguinte, quando o novo ano amanheceu, as luzes se apagaram, mas algo
havia mudado. Dona Maria sorria enquanto preparava o café. Seu João atravessou a rua
e bateu à porta do irmão. E Ana, com olhos brilhantes, desenhava futuros no caderno da
escola.
Ninguém soube que era obra do acendedor de lampiões. E talvez nem precisasse
saber. Porque, como ele mesmo dizia: “A luz não precisa ser vista; basta que ilumine o
caminho.”
O ano novo chega assim, como o acendedor de lampiões. De passos lentos,
atravessa a noite carregando uma promessa de luz. Cada chama é uma faísca de esperança,
uma pequena vitória sobre a escuridão que teima em se espalhar. Ele não apressa o
trabalho, porque sabe que acender é um ato de paciência, um convite ao tempo.
Quantas vezes, no ano que passou, as lâmpadas do nosso espírito pareceram se
apagar? A perda, o cansaço, o medo, os desencontros… Mas o acendedor nos ensina que,
mesmo no escuro, a luz está sempre ao alcance de um fósforo e da coragem de não desistir.
Talvez você pense: “É só mais um dia como outro qualquer.” Sim, pode ser. Mas
também pode ser o começo de algo extraordinário. O “novo” do ano novo está em gestos
simples: a coragem de perdoar, o amor nas pequenas coisas, a solidariedade diante do
sofrimento. Está na certeza de que Deus não nos abandona, mesmo quando tudo parece
perdido.
Entramos neste novo ano com as marcas do passado, mas com os olhos voltados
para o essencial: reconstruir laços, superar divisões, cultivar o cuidado. Vivemos tempos
em que o barulho da escuridão espalha medo e divisão. O novo ano nos convida a sermos
acendedores de lampiões: cada gesto de cuidado, cada palavra de perdão, cada abraço
ofertado é uma luz que resiste à ventania.
Antes de perdoar o outro, precisamos nos perdoar. Antes de abraçar o mundo,
precisamos nos acolher. Porque, no fim, só quem cuida das próprias feridas é capaz de
curar as do próximo. E se começássemos o ano assim? Não esperando respostas, mas
decidindo ser a resposta. Perdoando mágoas, preenchendo vazios, oferecendo paz onde
reina o caos.
Maria, mãe do Verbo, sabe bem o que é carregar uma promessa de luz. Como um
lampião na noite fria, ela nos inspira a confiar, mesmo sem entender o caminho. Porque
a esperança não é um desejo vazio, mas uma força que brota do coração aberto ao
inesperado.
E o acendedor, ao terminar seu trabalho, para por um instante.
Observa as luzes tremeluzindo e sorri. 
Ele sabe que sua missão não é afastar todas as sombras, mas acender
o suficiente para que alguém encontre o próximo passo.
Neste ano novo, sejamos acendedores de lampiões. Deixemos pequenos gestos de
luz por onde passarmos: um sorriso, um abraço, uma palavra de encorajamento. Porque,
no fundo, todos carregamos uma chama capaz de iluminar o mundo ao nosso redor. E,
quando a noite escura voltar, haverá luz suficiente para atravessá-la. Afinal, onde há
esperança, sempre haverá um novo amanhecer.
E assim, quando a luz se apaga, o silêncio toma seu lugar. Não como um vazio, mas
como um espaço sagrado, onde o coração pode escutar o que as palavras não conseguem
dizer. É no apagar das luzes que os finais se tornam pausas e os recomeços começam a
respirar.
Porque cada fim carrega o silêncio necessário para que algo novo floresça. É nesse
intervalo, entre o último brilho e a primeira chama, que aprendemos a confiar na força da
espera, no poder do invisível e na promessa de que, mesmo na escuridão, sempre haverá
uma luz esperando para ser acesa.
Afinal, o silêncio não é o fim, mas o terreno fértil dos recomeços.
por: Diego Bello Doze – coordenador do CPP