A Família Franciscana celebra neste ano de 2025 o Oitavo Centenário da composição do Cântico das Criaturas, o louvor que nasceu num momento delicado na vida do Poverello de Assis. Estamos em março de 1225. Francisco já havia retornado do Monte Alverne. Estava estigmatizado e as chagas lhe causavam as dores suplicadas em forma de graça no Alverne: “que em vida eu sinta na alma e no corpo, quanto for possível, aquelas dores que tu, doce Jesus, suportaste na hora da tua acerbíssima paixão” (3ª CSE). A estas dores se acrescentam os sofrimentos da doença nos olhos e uma inquietação na alma. Assim, enfermo, “morando numa pequena cela feita de esteiras” por cerca de três meses (CA 83,5), tão próximo à Igreja de São Damião, de Clara de Assis e suas Damas Pobres que ali viviam, depois de uma noite agitada e perturbada, Francisco experimenta uma profunda consolação do espírito.
Em meio à dor do corpo e da alegria na alma por sentir-se confortado pelo Senhor, Francisco compõe o novo “Louvor do Senhor pelas suas criaturas de que nos servimos a cada dia, sem as quais não podemos viver e nas quais o gênero humano muito ofende o Criador e doador de todos os bens” (CA 83,21-22). Brota assim, do coração amadurecido e purificado de Francisco, o belíssimo Cântico das Criaturas que os frades deveriam cantar como “jograis do Senhor”.
Um segundo cântico de louvor não podia faltar. Trata-se do mimo espiritual composto por Francisco para o consolo das damas pobres, sabendo do sofrimento delas com a sua doença: “Igualmente, naqueles dias e no mesmo lugar, depois que o bem-aventurado Francisco compôs os Louvores do Senhor pelas criaturas, compôs também algumas santas palavras com canto para maior consolação das damas pobres do mosteiro de São Damião, principalmente porque sabia que elas estavam muito atribuladas por sua enfermidade” (CA 85,1 e EP 90).
Eis o cântico composto há 800 anos, dedicado a Clara de Assis e às Irmãs Clarissas, com sua mística e encanto, consolo e certeza de que ali, em São Damião, as Pobres Damas viviam na fidelidade a dádiva da vocação dada pelo Senhor. Conhecemos o cântico intitulado “Ouvi Pobrezinhas”:
Ouvi, pobrezinhas, pelo Senhor chamadas,
que de muitas partes e províncias fostes congregadas:
Vivei sempre na verdade, para morrerdes na obediência.
Não olheis a vida de fora, porque a do espírito é melhor.
Eu vos rogo com grande amor,
que tenhais discrição nas esmolas que vos dá o Senhor.
As que estão por doença agravadas e as outras que por elas estão fatigadas,
umas e outras suportai-o em paz,
pois havereis de vender bem caro essa fadiga,
porque cada uma será rainha no céu coroada com a Virgem Maria.
Estas palavras com melodia, compostas para confortar as Irmãs que estavam sofrendo com as dores de Francisco, expressam os sentimentos mais profundos de comunhão e motivação para o mútuo crescimento: fidelidade para morrer na obediência; viver a vida segundo o espírito; acolher com discrição, moderação e pobreza as esmolas dadas pelo Senhor; sustentar em paz as fragilidades e enfermidades; curar as enfermidades pela proximidade fraterna; ter presente a vida eterna num olhar contemplativo para o Ressuscitado e sua Mãe Santíssima.
Vivei sempre na verdade, para morrerdes na obediência.
Francisco e Clara experimentaram a grandeza com que foram contemplados e amados por Deus. Diferentes de Adão e Eva, eles não temeram estar na presença e viver na verdade de Deus (Gn 3,8-10). Tinham consciência da grandeza de suas vidas (Adm 5,1) e sabiam perfeitamente “quanto é o homem diante de Deus, tanto é e não mais” (Adm 19,2).
No seu Testamento Clara escreveu: “Repedidas vezes fizemos nossa entrega voluntária à nossa santíssima Senhora Pobreza, para que, depois da minha morte, as irmãs que estão e as que vierem não possam de maneia alguma afastar-se dela” (TC 39) e ainda, “observemos a referida forma de pobreza que prometemos a Deus e a nosso bem-aventurado pai Francisco” (TC 52).
Clara, nas suas últimas palavras, dá as mais belas indicações daquilo que é viver na verdade para morrer na obediência. Relata-nos a Legenda: “A virgem muito santa, voltando-se para si mesma, diz baixinho à sua alma: Vá segura. Que você tem uma boa escolta para o caminho” (LSC 46). E a Legenda Versificada acrescenta, como consequência desta obediência, sua certeza última: “O próprio Criador, que a fez do nada, que a santificou, e que sempre gostou de guardá-la como uma mãe guarda o seu filho” (2LV 32), pronuncia cordialmente esta ação de graças: “Bendito sejais Vós, Senhor, que me criastes! ” (LSC 46).
Não olheis a vida de fora, porque a do espírito é melhor.Clara e Francisco conheceram a “vida de fora” com seu dinamismo, seu ritmo e ambições. Clara fora educada para grandiosa na “vida de fora”. Contudo, motivada pela conversão, ensinamento e exemplo de Francisco, ela rompe com a “vida de fora”, isto é, a promessa matrimonial, a segurança da cidade e da família e a classe social (de nobre se fez pobre). Rompe, no Domingo de Ramos, com aquela vida para abraçar no Espírito a vida segundo o Santo Evangelho.
A clausura abraçada não foi um esconderijo para afastar-se da vida das pessoas. A vida do espírito necessitava do recolhimento para viver a união mística com Deus, em pobreza e na liberdade, sem as seguranças humanas. Nesta clausura todas as Irmãs foram convocadas a “desejar ter o espírito do Senhor e sua operação” (RC 10,9) em todos os atos da vida.

Creio que aqui Francisco toca numa questão extremamente delicada. Ele não se apresenta como um juiz que usa de “medidas” ou “pesos” para julgar as esmolas que o Senhor dava às Irmãs. Ele continua fiel a Clara para não se servirem de subterfúgios diante das reais necessidades, com o risco de não observarem a santa pobreza prometida ao Senhor. Então, qual é o reto uso das esmolas dadas pelo Senhor para quem passava por extremas necessidades, tanto na alimentação, como no vestuário ou na medicação? Como conjugar o Privilégio da Pobreza, solicitado por Clara, frente as esmolas que as Irmãs Pobres recebiam? É aqui que Clara se apresenta como uma mestra sábia quando prescreveu no coração da Regra os três capítulos acerca da Pobreza: do não possuir propriedades; do modo de trabalhar e que as Irmãs de nada se apropriem e sobre o pedir esmolas (RC VI-VIII). Em palavras simples, podemos dizer que Clara convoca as Irmãs à corresponsabilidade, à sensibilidade… Ensina-nos hoje, no espírito da “Laudato sì”, o que significa viver com sobriedade numa vida de pobreza voluntariamente abraçada.
As que estão por doença agravadas e as outras que por elas estão fatigadas, umas e outras suportai-o em paz. Esta belíssima recomendação, em forma de hino de louvor, é uma pérola preciosa no contexto do Audite Poverelle e que Clara, com a alma e sensibilidade feminina, mais do que ninguém soube colocar em prática. Francisco, ao escrever este cântico, estava enfermo. Clara também dava sinais de enfermidades. Ambos sabiam que tanto o cuidado como o deixar-se cuidar nas enfermidades não era tarefa fácil. Sim, as enfermidades causam fadigas. Mais cômodo, como verificamos nos nossos dias, é negociar o cuidado. Se tenho condições, eu pago para cuidar porque não quero me fatigar ou aborrecer. E se não tenho condições, como ficam as pessoas caídas à beira do caminho nas nossas comunidades, fraternidades e famílias? Como ressoam em nós as ações da parábola do bom samaritano que viu a pessoa ferida, dela se aproximou, se compadeceu e a conduziu à hospedaria?
Aqui Clara e Francisco usam a mesma linguagem quando ressignificam a importância de manifestar fraternalmente as necessidades pessoais para prover e servir as enfermidades da forma como cada uma “gostaria de ser servida se estivesse em idêntica situação (RSC 8,13). É obra de misericórdia ajudar, mas também é obra de misericórdia educar-se para permitir que os irmãos ou irmãs me ajudem na fadiga do cuidado para nos suportamos (sustentar-nos) em paz.

Clara, logo que foi morar nos anexos da igrejinha de São Damião, recebeu de Francisco uma pequena forma de vida inspirada na vida de Maria Santíssima: “Vos fizestes filhas e servas do altíssimo e sumo Rei, o Pai celeste, e desposastes o Espírito Santo, escolhendo viver segundo a perfeição do Santo Evangelho” (RC VI,3). Esta mística mariana também se lê na “Última Vontade”: “Eu, Frei Francisco, pequenino, quero seguir a vida e a pobreza de nosso altíssimo Senhor Jesus Cristo e de sua Mãe santíssima; e perseverar nela até o fim” (RC VI,7).
Francisco vê na vida cotidiana das Irmãs Pobres a presença das fadigas de Maria como a mulher que, na meditação e no recolhimento guardou em seu coração os mistérios divinos; se preocupou com as fadigas da sua prima Isabel; se angustiou quando seu Filho estava perdido; percebeu as necessidades e se antecipa no cuidado como nas Bodas de Caná; acompanhou dolorosamente a paixão da humanidade presente na Paixão de Jesus; ousada e corajosamente acompanhou seu filho até o “alto” para “contemplar a caridade inefável com que padeceu no lenho da cruz”; acolheu maternalmente do Filho Crucificado a nobre missão da maternidade e do cuidado de todos os irmãos e irmãs: “Mulher, este é o teu filho”.
E assim podemos estas breves ressonâncias do Audite Poverelle com as palavras de Clara de Assis na carta a Ermentrudes de Bruges: “Trate de meditar sempre nos mistérios da cruz e nas dores de sua Mãe que estava ao pé da cruz” (Er12). Este é o caminho da coroação e da glória.
Frei Fidêncio Vanboemmel, OFM
Assistente religioso da Federação Sagrada Família das Irmãs Clarissas do Brasil.
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texto extraído da Revista Paz e Bem
