“Vai e reconstrói a minha casa, que, como vê, está em ruínas” em tantas moradias precárias, marginalizadas e em áreas de risco!

A cada ano, a Campanha da Fraternidade parte da realidade brasileira, para propor aos cristãos/ãs e a toda a sociedade, um forte apelo à mudança, pois a injustiça e a miséria não são aceitáveis nesse nosso país de tanta abundância. Esta Campanha é sempre lançada na quaresma, um tempo de renovação, e busca ser uma ajuda para aprofundar o ser cristão. De modo que o mandamento central de Cristo é o “amor” a Deus e ao próximo, as práticas religiosas como a oração, a leitura bíblica e a devoção são “alimentos” para se viver esse mandamento central, o “amor fraterno”. Como dizia Santo Irineu, o “que não é assumido, não é redimido” (Doc. F. Sínodo Amazônia, 51), por isso é muito necessário assumirmos, conhecermos e nos comprometermos com as realidades brasileiras, colocando-as à luz da fé e do amor, para se transformarem em realidades de mais fraternidade e inclusão de todos.
É importante ressaltar que vivemos em um país marcado gravemente pela exclusão. Foram cerca de 350 anos de bárbara escravização dos irmãos negros no Brasil! O que se viveu nesta terra em que habitamos foram trabalhos forçados, torturas e várias maldades que nos entristecem ao saber e lembrar. A Igreja reconhece o quanto essa situação foi inadmissível e quanto quase nada fizemos diante dessa barbárie. Não fazer nada, aliás, foi o que fez o rico epulão do Evangelho de Lucas, ao qual Jesus mostra seu triste destino (cf. Lc 16). Lamentar e reconhecer a grave falha de todas as instituições diante da escravidão é o mínimo. É gesto cristão. Mas podemos agir e fazer diferente hoje!
Recentemente a Revista Casa Comum, em sua edição 13, sobre a “moradia”, traz que uma “mulher negra pode levar hoje até sete gerações para ter sua casa”. Isso tem que nos interrogar muito! Por que? Recordamos que, após a escravização no Brasil, todos os escravizados foram “liberados” sem nenhuma condição para viver: sem nenhuma terra sequer, sem nenhum direito, sem nenhuma indenização, e muitas favelas começam a surgir quase que imediatamente ao fim dessa escravização, no final do século 19, para onde eles se dirigiram. Assim, atualmente a população que mora precariamente é majoritariamente de “pretos ou pardos” (cf. texto-base da CF 2026, nº 46, 59, 64), bem como de jovens e mulheres.
E sabemos que mudar a situação social não acontece facilmente num país que se estrutura para manter as diferenças sociais, em vista de garantir os benefícios e as riquezas a uma classe de pouca gente abastada. Por isso, urge uma mudança estrutural dessa realidade desigual, que desagrada fortemente a Deus. Maria, sua mãe, em seu cântico no início do Evangelho de Lucas traz que o projeto de Deus não coexiste com o acúmulo de riqueza não partilhada, por isso “despede os ricos de mãos vazias” (Lc 1,53), nem o Reino de Deus coexiste com a concentração de poder nas mãos de gente gananciosa, que pisa nos empobrecidos, por isso “derruba do trono os poderosos” (Lc 1,52).
Esse é o caminho da ação de nosso Deus, que pode e precisa ecoar em sua e nossa Igreja. Por isso que a Campanha da Fraternidade provoca uma mudança no todo: dentro de nós, em nosso coração um pouco fechado, em nossa comunidade, às vezes meio dividida e indiferente, e em nossa sociedade injusta e desigual. Vai sempre acontecer de alguns não gostarem muito da Campanha da Fraternidade e quererem fazer como aquele grupo que não gostava de Jesus e que influenciou o julgamento para o crucificarem… a Campanha da Fraternidade vem espalhar para todos os cantos o “amor fraterno” como Jesus fazia e junto vem, em acréscimo, o caminho da paixão, perseguição e cruz. Se ela é tão perseguida, é por estar no caminho de Jesus, anuncia o amor salvador no seu ápice, com solidariedade e tocando nas causas da injustiça… o amor radical sofre com as forças do anti-reino, nas críticas, nas calúnias e nas oposições, como o povo sofre todo dia. Faz parte do caminho cristão.

Nesse caminho, em 2026, a Igreja do Brasil vem olhar com atenção à realidade da moradia! São cerca de 70 milhões de brasileiras e brasileiros que moram com precariedade. Temos cerca de 6 milhões de famílias (cf. CF 2026, nº 63) que necessitam para hoje de uma moradia, por morarem muito precariamente, como em moradia de lata e papelão, por comprometerem demasiado a renda com o aluguel ou ainda morando de favor. Junto a essas duras situações, mais de 20 milhões de famílias (cf. CF 2026, nº 69) moram com certa precariedade: podem ter uma moradia, mas pode ser muito pequena e precisa ser ampliada; um milhão de pessoas não tem banheiro ainda no Brasil (cf. CF 2026, nº 71); ou estão em área de risco; ou em favelas, cortiços, vilas e, ainda que tenham uma moradia, padecem com a precariedade, como falta de esgoto, de serviços públicos, de transporte eficiente ou mesmo de segurança. Além dos mais de 300 mil irmã/os em situação de rua no país.

Há tanta gente morando com precariedade, mas o olhar da sociedade muitas vezes não os vê nem se fixa em seus problemas. Primeiro, porque no Brasil temos uma sociedade muito dividida entre “áreas centrais e bairros mais estruturados” e as “periferias”, e ambos muitas vezes não se conversam nem se encontram! Nosso país não é nada cristão! Jesus não só anunciou a Boa Nova para pessoas individualmente, mas também para grupos e para a sociedade de seu tempo, ele falava com muitos, pregava a “multidões”… e nós, estamos nos limitando a conversão somente individual? Sem ver a realidade ao nosso entorno, que maltrata a milhões de pessoas? Nesse sentido, o Papa Leão XIV disse recentemente aos movimentos sociais: Quando se fala das “coisas novas” temos a tendência a pensar na robótica, nas novas tecnologias ou em espaços novos nas nossas sociedades e parece que as pautas mais elementares, como a moradia, a fome e o trabalho são pautas já superadas. Mas para milhões que carecem de comida, trabalho digno e moradia digna são “pautas” atualíssimas. Às vezes, a Igreja pode estar muito nos ambientes mais centrais, desconhecendo ou ignorando a realidade de tantos irmãos e irmãs mais vulneráveis. Todavia, a força da Igreja sempre esteve nos pobres!
Por isso, a Campanha da Fraternidade é um forte apelo ao nosso modo de ver e de viver, por vezes, isolados, individualistas ou preocupados demais só com nossas coisas em um mundo agitado e da rapidez. Jesus nasceu “sem ter onde morar” (Lc 2,7) e “não havia lugar para eles” (Lc 9,58). Papa Leão XIV, em sua Exortação Dilexi te, fala que o amor aos pobres não está no campo da beneficência, mas da revelação (DT 5), ou seja, não se trata só de fazer um bem, mas de encontrar Jesus em cada irmão sofrido e vulnerável. Ele mesmo nasceu e viveu assim.
Poderíamos pensar que nasceu assim por causa da indiferença casual naquele momento. Mas Jesus viveu toda a sua vida assim, à margem, sem ter “onde reclinar a cabeça”. Faz parte da revelação. Podemos rezar e pensar muito nisso, como São Francisco fazia… Jesus nasce e vive sem tirar nada de ninguém, por isso não vive em um castelo, onde, com frequência, estão quem acumula às custas dos outros. Mas também mostra que viver na realidade simples e comum é para todo ser humano viver. Sem diferenças que separam, mas todos irmãos. Se Jesus nasceu e viveu desprovido e à margem é porque no Reino de Deus todos viveremos sem necessidade de apegos, de muros ou de propriedades, ainda que possam ter valor hoje, no Reino todos serão por todos, o apoio de todos para com todos será a grande segurança e a Boa Nova!
Às vezes estamos um pouco perto disso em muitas favelas, em que as pessoas compartilham o pouco que tem, porque sabem o que é ter necessidade e precisar do outro. Por outro lado, às vezes estamos bem distantes disso, isolados em prédios ou em nossos mundos, seja nos ambientes que gostamos de estar, seja em nossos ambientes virtuais. Precisamos mudar muito! Para alguns pode parecer difícil demais. Mas Jesus tem uma pedagogia de ir à raiz dos problemas e, assim, se tornam possíveis as mudanças. Esse “ir às raízes dos problemas”, que assusta os poderosos de todos os tempos, é ir à causa ou raiz que nos separa dos outros, que são nossos irmãos e aos quais, no fundo, estimamos. Essa estrutura social excludente e desigual não nos preenche e nos deixa sempre com uma sensação ruim. Há muitos que se inquietam ao ver multidões sofrendo com enchentes ou deslizamentos, ou mesmo padecendo a dureza da vida nas favelas e locais de risco. Como fortalecer a sensibilidade e fazermos pontes entre as pessoas e “rompermos esses muros de exclusão”?
Aqui vem a urgência de nosso agir! Urge uma grande mobilização para superarmos a exclusão e fortalecermos a fraternidade, a inclusão e a vida digna a todos. Houve somente uma Campanha da Fraternidade diretamente sobre “moradia”, em 1993, um aspecto tão estruturante da vida de todos nós. Somado a isso, a próxima Campanha da Fraternidade “chama a atenção para ‘nossas débeis vivências, da opção preferencial pelos pobres… e, apesar da insistência do magistério do Papa Francisco por uma ‘Igreja em saída’, encontram-se muitos obstáculos a uma presença mais efetiva da Igreja Católica nas periferias” (cf. CF 2026, nº 74 e 75). Urge, pois, uma grande Campanha da Fraternidade e Moradia, a partir da realidade das inúmeras periferias.

Assim, “com os pobres e pelos pobres, façamos ecoar fortemente em nossas mãos e em nossos pés – com nosso agir concreto – o forte grito das periferias… Nas palavras do saudoso Papa Francisco, ‘nenhuma família sem casa” (CF 2026, nº 170). Primeiro, nos mobilizemos e nos organizemos para promover a próxima Campanha da Fraternidade e Moradia! Estudar e aprofundar o texto-base é importante. Queremos propor junto os encontros populares e ecumênicos “Sem Moradia, por quê?” (Edições CNBB), elaborado por nós, da Pastoral da Moradia e Favela nacional, em conjunto com biblistas do CEBI e experientes urbanistas, bem como com a escuta do povo das periferias com suas organizações, os protagonistas na luta pelo direito à moradia digna.
Por fim, o texto-base nos apela a “fortalecer a presença eclesial de escuta e empatia transformadora nas periferias”, a “fortalecer as pastorais sociais com atuações diretas junto às pessoas e às realidades das periferias” e a formar a Pastoral da Moradia e Favela (CF 2026, nº 173), enquanto uma ação pastoral que conhece as causas da moradia precária, as soluções, os parceiros e mobiliza a transformação da exclusão do direito à moradia digna. Por vezes, diante de uma enchente, um deslizamento de terras, um despejo… nos limitamos a um apoio com uma cesta básica ou roupas usadas. Podemos e precisamos ir muito além! Não é possível que nossos irmãos e irmãs sofram tanto na precariedade e pobreza, em um país com tantos recursos. E esse é o caminho que o Bom Samaritano e Francisco de Assis fizeram: fizeram misericórdia – são próximos, compartilham a si e o que têm com os vulneráveis e contam com os serviços de outros para o restabelecimento integral.
Revista Paz e Bem, jan/fev2026