UM HOMEM CHAMADO FRANCISCO
Frei Almir Ribeiro Guimarães
Vivia na cidade de Assis, na região do vale de Espoleto, um homem chamado Francisco (1Cel 1,1). 
Muitos são os homens e as mulheres de todos os tempos, de todas as classes sociais e culturais, de todos os continentes, que viveram antes e depois da vinda de Cristo, nesse inexorável e incessante correr do tempo que deram uma contribuição sem tamanho para o avanço da caminhada da humanidade. Buscadores da verdade e peregrinos ao encalço do Mistério. Gente cheia de saudade do Mistério. Tantos são que não podemos enumerá-los.
Podemos dizer, sem medo de errar, que um nome que nos é muito caro e que sempre nos provoca é Francisco. Sim, vivia na cidade de Assis um homem chamado Francisco, nome ao qual todos se referem com carinho, respeito e admiração. Nome, aliás, de profunda atualidade. Quando o
Cardeal argentino Jorge Bergoglio foi eleito bispo de Roma adotou o nome de Papa Francisco. Francisco de Assis, o Poverello, o Pobrezinho. Buscador da verdade e peregrino ao encalço do Senhor.
Veio ao mundo na verdejante região da Úmbria. Nasce, segundo as Fontes, em 1181-1182 e termina seus dias em 1226. Filho de Pedro Bernardone e de Joana, provável nome de sua mãe, que era conhecida como Dona Pica. Na ausência do pai recebe o nome de João. Quando este volta da França, muda-lhe o nome para Francisco. Seria um “francesinho”. Teria tido um único irmão com o nome de Ângelo.
Francisco, um ser único
“Eu tinha apenas doze anos quando li pela primeira vez uma vida de Francisco de Assis. Logo fui dominado por aquela figura tão viva e radiante. O que me seduzia naquele homem era sua imensa capacidade de comunhão fraterna com todos os seres, inclusive com os mais humildes, os mais rasteiros. Eu o via simpatizar com todas as criaturas: com todos os seres humanos é claro, mas também com os animais e os próprios elementos materiais. Fraternizava com o Sol, a Lua, as estrelas, com o vento, as nuvens, a água e o fogo. Com a própria Terra. Ia ao encontro de Deus com toda a criação. Francisco me pareceu como um homem que engloba todos os seres em seu amor a Deus e seu impulso para o Altíssimo. Foi assim que despertou em mim a inspiração franciscana. Com toda ingenuidade, sem dúvida. Naquele momento nem sabia exprimi-la como faço hoje. Mas o que eu entrevia em Francisco era exatamente esta total abertura e total presença ao mundo, sob o signo de uma comunhão fraterna dentro de uma unidade de criação. Essa comunhão e essa unidade não deviam ser procuradas num passado mítico, mas era uma tarefa a ser realizada em nossa história. Todo ser humano era convidado a cooperar para a chegada dessa comunhão e desta unidade. Numa palavra, fui seduzido pelo que podemos chamar de “poética franciscana” ou “utopia franciscana”, dando a essas expressões seu sentido dinâmico e criador” (Éloi Leclerc, O sol nasce em Assis, Vozes, 2000, p.15-16).
Referindo-se a Francisco, André Vauchez, faz reflexões que aqui assumimos. Francisco, depois de um tempo de reflexão, torna-se um adepto da pobreza de Cristo. Seus contemporâneos, fascinados por sua personalidade e por sua pregação itinerante, seu ir pelo mundo, não tardaram a ver nele um arauto do Evangelho e logo um santo. 
Vauchez insiste que ele teve o imenso mérito de operar em sua pessoa a síntese entre as aspirações, às vezes contraditórias, dos movimentos religiosos que tinham marcado as gerações precedentes e a mais autêntica tradição cristã. Para ele, “uma profunda devoção ao Cristo, venerado em sua humilhação e, especialmente pelos sofrimentos que experimentara na cruz era acompanhado de um sentido agudo da onipotência e transcendência divinas; do mesmo, o seu desejo de viver a pobreza mais total e na humildade não excluía uma fidelidade sem falhas à Igreja, enquanto o olhar fundamentalmente benevolente que ele dirigia ao homem e o universo tornava-o insensível às tentações do dualismo. Poucos homens associaram, como ele, em um grau excepcional, o objetivo apostólico e a experiência ascética, o evangelismo integral e o espírito de obediência” (André Vauchez, A Espiritualidade na Idade Média Ocidental, Jorge Zahar Editor, p. 127).
“Amigo de todas as criaturas e de toda a criação, espalhou tanta solicitude, compreensão fraternal a todas, caridade no sentido mais elevado, quer dizer, amor que a história, como que lhe deu em troca a mesma simpatia e admiração afetuosa e geral. Todos os que falaram sobre ele ou sobre ele escreveram – católicos, protestantes, não cristãos e incréus – foram tocados e fascinados por seu encanto” (Jacques Le Goff).
Original, plástico e cândido
Francisco não cabe em nossos esquemas de gente comum, nem mesmo de gente santa. É um dançarino ao ouvir a música da vida. Tem os braços sempre levantados para reger a todo instante a orquestra da vida. Atento, em seu caminhar, para ver as margaridas abrirem as pétalas, balançando o caule ao sabor do vento sereno como a lhe solicitar um sorrisos e ele não negava.
Ser originalíssimo, marcado pela candura. Era capaz de desviar os passo para não pisar na formiguinha laboriosa que levava ao formigueiro a comidinha necessária para o tempo do inverno e para alimentar as formiguinhas que continuavam a nascer. Não hesitava em quebrar o jejum da Regra e dirigia-se para a parreira para comer uvas com um irmão que parecia morrer de fome. Aprecia as coisas que se passam ao vivo. Leva uma vassoura para varrer as igrejinhas descuidadas. Tira a roupa em praça pública diante do bispo e de seu pai e fica nu diante deles rezando o Pai nosso de braços abertos. Quando está para morrer tem desejo de comer aquele doce de amêndoas que Fra Jacoba sabia bem preparar. Na hora de morrer coloca seu resto de corpo nu na terra nua, fechando teatral e liturgicamente sua trajetória.
“Quero ser um São Francisco de Assis”
E agora uma palavra carinhosa do escritor novelista Julien Green sobre São Francisco: “Grande devorador de livros, tinha descoberto a obra de Madame Arvède Barine sobre São Francisco de Assis e a Legenda dos Três Companheiros. Fiquei louco de amor por esse mundo maravilhoso. Sonhava me tornar como São Francisco de Assis e quando o diretor encarregado de minha instrução religiosa me perguntou que nome eu tinha escolhido para o meu batismo, respondi logo: “São Francisco de Assis”. Ele não manifestou nenhuma alegria e apenas disse com voz calma: “Eu teria preferido São Francisco de Sales, mas já que é sua a escolha, ela será respeitada. Eu não conhecia São Francisco de Sales e o padre jesuíta, santo homem certamente, não julgou oportuno me falar de Francisco de Assis, mas eu, habitualmente calado, me tornava tagarela quando me permitia elogiá-lo. Eu me sentia levado a completar um pouco a instrução do reverendo padre sobre esse grande personagem que ele parecia não conhecer muito bem. Ele me ouvia com uma educação cuja ironia me escapava completamente. Quantos pensamentos loucos turbilhonavam em minha cabeça ignorante! Ser como São Francisco, que glória! Eu era mesmo categórico com meus impulsos religiosos: “Quero ser São Francisco de Assis”, declarei-lhe um dia. Um longo olhar sério foi sua resposta” (Julien Green, São Francisco de Assis, Ed. Francisco Alves, Rio de Janeiro, p. 227).
Francisco: frágil, forte e profeta
Resumo aqui algumas linhas de Suzanne Giuseppi Testut que qualifica Francisco “le prophète de l”extreme” (extremamente profético). Como qualquer homem ele é grande e frágil. Sua conversão e caminho foram acontecendo gradualmente: jovem, imaginando seu futuro mundano, transbordando de ambição e não se deixando tocar. Homem sempre nas estradas, vagueando, a caminho, vereda na qual alegrias, sofrimentos, dúvidas, confrontações, decepções, desafios permanentes se entrechocam. Ele, então, toma como modelo supremo sem jamais se separar dele, “a humildade de Deus”, aquela “Palavra de Deus tomando a carne de nossa humanidade e de nossa fragilidade ao escolher a pobreza (2ªCtFi 4-5). Francisco toma como modelo a humildade do amor que se faz servo. Deixa sua visão terrenas das coisas e se agarra na fé.
Francisco de Assis é também um profeta, um místico, um teólogo digno de nota, um evangelizador, um poeta, um evangelizador, um apóstolo, uma testemunha, um missionário, um santo. Testut afirma literalmente: “Não esqueçamos, no entanto, que Francisco é homem falível como todos nós. Sua imensa lucidez e sua fé nos convidam há 800 a nos vincularmos ao Evangelho, porque somente ele pode nos ajudar a responder com confiança e coragem aos desafios deste mundo. Para todo franciscano o Evangelho é o livro de formação indispensável” (cf. Suzanne Giuseppi Testut, François d’Assise, Le prophète de l”extreme, Nouvelle Cité, Bélgica, p. 24-26).
Concluindo
Algumas linhas da deliciosa Legenda dos Três Companheiros servirão de fecho desta nossa primeira reflexão da série deste ano: “Os pais o repreendiam dizendo que pelas grandes despesas que ele fazia consigo e com os outros não parecia ser filho deles, mas de algum grande príncipe. Como também eram ricos e o amavam com ternura permitiam-lhe tais extravagâncias, para não o entristecer. Quando a mãe de Francisco ouvia as vizinhas comentar acerca de sua prodigalidade, respondia: “Que pensais de meu filho? Ainda terá a graça de ser um santo de Deus!””.