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Destaques, Notícias › 12/08/2020

OLHAR COTIDIANO: “E A FAMÍLIA COMO VAI?” – DIEGO BELLO DOZE

“O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. Guimarães Rosa coloca na boca de Riobaldo, personagem de Grande Sertão Veredas, verdades profundas e que merecem nossa atenção e oração. Nestes tempos de Covid-19, nós, que vivíamos o “correr da vida” e pouco nos encontrávamos – às vezes para as refeições ou mesmo tarde da noite –, passamos a estar 24h por dia junto. Isso nos provocou a perceber como a areia da ampulheta escorre rápido demais: as crianças viraram adolescentes, os cabelos dos nossos pais estão prateados, o tempo deixou suas marcas no rosto e na mão. O computador, o celular e a tv, que antes roubavam nossa atenção, agora foram realocados com as infinitas horas de home office. A crise nos forçou a olharmos o outro olho no olho.

Neste momento difícil pelo qual atravessamos, nossas famílias são chamadas a fazer uma profunda experiência de amor, de perdão, de respeito e de paciência. Temos a oportunidade de conhecer melhor o outro, mas também estamos lidando constantemente com as imperfeições do outro (assim como o outro com as nossas). Por isso precisamos da misericórdia, compreender o outro na sua integridade, precisamos nos reinventar no amor; que fique claro que não digo que isso seja sempre fácil, mas necessário, humano e cristão. É tempo de cuidar! De viver o amor nos tempos de pandemia, parafraseando a obra de Gabriel García Márquez.

Muitos de nós – escrevo isso sem medo de errar – estamos sabendo tirar as melhores lições deste momento, estamos construindo oportunidades de conviver, sentiremos falta de almoçar juntos, de demonstrar o afeto com perguntas simples “está tudo bem?”, “quer um café?”, “que tal um bolinho de chuva?”, “precisa de alguma coisa, eu levo para você”. Mas nem todas as famílias experimentam essa realidade.

Longe deste texto ser pessimista, é a partilha de angústias na janela do apartamento. Se temos experimentado o amor, muitos vivem o “desamor” traduzido em ansiedade, em respostas duras e ríspidas, no aumento de divórcio, nos litígios frequentes entre pais separados pela guarda dos filhos, nas denúncias crescentes de violência doméstica e abusos sexuais dentro de casa, na solidão, especialmente dos idosos que por serem da faixa de risco foram esquecidos e “forçados” ao isolamento ao invés de acolhidos e abrigados em nossos lares. Conviver talvez seja o verbo mais difícil de se conjugar na língua portuguesa.

Escrevo este texto no dia em que o Brasil se despede de Dom Pedro Casaldáliga que muito lutou pelos direitos humanos na ditadura brasileira e depois dela, em especial dos mais pobres e no dia em que o Brasil atinge a dolorosa marca de cem mil mortes pelo coronavírus. Isso me leva a rezar por todas as famílias que tiveram de soltar a mão dos seus entes queridos novos ou velhos, vítimas da doença ou não, e não tiveram a oportunidade de sepultá-los com todo o respeito ou dignidade necessários. Por eles fica a nossa oração.

Como disse acima, este não é um texto pessimista, mas reflexivo que nos convida a olhar as múltiplas realidades na qual estamos inseridos: umas melhores, outras mais doloridas. Voltemos a Guimarães Rosa: o que a vida “quer da gente é coragem”. O título deste artigo nos remete à Campanha da Fraternidade de 1994, Educação e a Família, e se talvez se faça mais atual e necessário do que nunca: e a família como vai? E a Sua família como vai? E você como vai?

Fazei que, a exemplo da Família de Nazaré, nossas famílias vivam o amor, cresçam na fé, no perdão e na oração. Abençoai as famílias, Senhor! Nós Vos bendizemos pela missão da família; de ser a casa do amor e da ternura, do diálogo e da fraternidade, da acolhida e da justiça, da partilha do pão para todos. Amém! (Oração da CF-94)

Diego Bello Doze

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