Paróquia São Francisco de Assis

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Santa Clara

Queria apenas seguir Nosso Senhor Jesus Cristo, que nasceu pobre num presépio, apresentou-se pequenino na pobre aparência da Hóstia e morreu pobre como um marginal, na cruz.

Não queria ser dona de nada, para não ter de defender nada, pois Jesus também não possuía nada. Não queria mandar em nada, porque Jesus não mandou em ninguém; e não queria ser importante, porque Jesus Cristo também não fora importante, pois caso contrário teria nascido em Roma ou em Jerusalém.

Assim, ser pobre significa usar as coisas que o Pai do céu nos empresta nesta vida, repartindo-as com quem necessita, fazendo bom uso delas para devolvê-las com lucro quando formos para a Casa do Pai.

 

Clara e o seguimento do Cristo pobre e humilhado

Ela olhava o Cristo da cruz, como a mãe tinha ensinado, e o achava muito bonito. Mais do que o sangue e a morte, enxergava nele o amor imenso por nós que o levara a esse extremo. Só que ela nunca separou a figura de Jesus, o Filho de Deus, de todas aquelas outras figuras sofridas de filhos e filhas de Deus. Talvez por olhar muito para Jesus crucificado, a presença dos pobres falava mais forte de Jesus do que a presença poderosa e bonita dos cavaleiros e damas que enchiam sua casa.

Clara foi movida pela descoberta que mudou sua vida: O Altíssimo se fez pobre e pequeno. Quis segui-lo e concluiu que viver pobre como Jesus Cristo é não ter nada de próprio. Entretanto isso não foi uma simples decisão de vida ascética pessoal, mas se entendeu pobre dentro de uma Igreja pobre.

Clara como Francisco se impressionou pela proposta de Jesus Cristo: ele não veio propor a fome e a miséria, mas ensinar que só se vive em plenitude quando a boca e o coração estão vazios para provar sempre outras novidades.

 

Viver como Jesus é não ter nada de próprio

Como filhos de Deus, não precisamos nos agarrar a nada como propriedade. Podemos usar à vontade e deixar à disposição dos outros: “Recebestes de graça, daí de graça!”.

No tempo de Clara, como no nosso, quem não tinha não podia ostentar posses e poderes, era desprezível. Por isso ela diz que não faz mal ser desprezível – se até Jesus foi visto como desprezível, porque são os desprezados que mais aproveitam as riquezas do Pai que está no céu: estão sempre livres para tudo o que aparecer.

Para ela, ser virgem, era deixar em si mesma o maior espaço possível para Deus, pois em campo aberto, o Cristo interior se expande. É esse Cristo vazio e livre que ela abraça, vazia e livre, sem nada de próprio.

 

O Programa da Pobreza

Diante do povo de Deus, Clara, como os irmãos menores prometeu viver o Cristo pobre. A sua Profissão de Vida, refere-se à pobreza de Cristo, tão maravilhosa que nem dá para contar, mas em que ela e o seu grupo estavam pondo todo o sentido da sua vida. Se o Filho de Deus veio ensinar que para ter vida em plenitude é preciso ser pobre, esse tem que ser o nosso programa. Não é um acessório na vida, é uma atitude fundamental de quem se abre a todas as realidades do mundo de Deus.

Foi da Pobreza que ela e as irmãs fizeram voto de obediência, e quis que as irmãs que a sucedessem seguissem essa pobreza e garantiu isso solicitando o Privilégio da Pobreza ao Papa Inocêncio.

O Jesus da Igreja Pobre

Clara vendeu tudo para dar aos pobres. Ela via o mundo diferente dos que os ricos do seu tempo viam. Sua vida e seu programa são um Evangelho desinstalador para todos. Por isso seu programa de vida é para todos que estão dispostos a construir o Reino. Clara deixa bem claro que seguir o caminho de Jesus é viver a pobreza. O entusiasmo que ela demonstra  pelo Cristo é aberto a todos os cristãos. Isso deve ser motivo de alegria, porque ela já preferiu a pobreza. Ela demonstra essa alegria, porque Inês aderiu ao Cristo Pobre. Todos os buscadores insaciáveis de Deus viveram esse Cristo pobre e servidor.

 

Colocando em prática:

  • Veja se não está acumulando coisas que nem usa: roupas, objetos etc. e que os outros estão precisando
  • Veja se não se apropriou de lugares, trabalhos, posições, pessoas. de que não larga há muito tempo, e que tiraram ou diminuíram sua liberdade (e a dos outros).
  • Abra espaço para Deus em sua interioridade, livrando-se de tudo que nem você, nem seus irmãos e irmãs estão precisando agora.

 

Santa Clara e o seguimento do Cristo amigo

O povo muitas vezes apresentou Clara como namorada de Francisco. Foi uma forma de demonstrar a admiração pela amizade que os uniu. Mas Clara tinha uma outra amizade cheia de ternura por Inês de Praga, que ela nem conheceu pessoalmente, mas que revelam um aspecto interessante do Cristo interior de Clara.

Embora o valor de se ter e ser amigo tenha feito parte de todas as culturas, hoje isso passou a ser um sonho. A preconceituosa mentalidade patriarcal impediu muitas amizades de se consolidarem. Clara vem resgatar esse tesouro.

 

A amizade como um dom especial

Hoje em dia usamos a palavra amigo com um sentido distorcido e a usamos para colegas ou companheiros. A Bíblia diz que “quem encontrou um amigo encontrou um tesouro” e isso mostra que uma verdadeira amizade não é muito comum.

O importante na amizade é que uma pessoa se volte para a outra e as duas se voltem para um caminho comum que as supera. A amizade nos leva a transpor o nosso eu mais profundo para fora, para o outro e descobrir nele novos aspectos que não havíamos ainda descoberto. Quando a amizade revela o Cristo interior é sempre uma revelação de Deus.

Todo o afeto de Clara por Francisco é fundamentado quando ela diz: “O Filho de Deus fez-se para nós o Caminho, que nosso bem-aventurado pai Francisco, que o amou e seguiu de verdade, nos mostrou e ensinou por palavras e exemplo” (TestC 5). Clara estava falando de sua vocação e o papel de Francisco em sua vida, foi revelar o seu interior e revelar o seu Cristo interior.

Ela se considerava uma plantinha de Francisco: sentiu-se plantada no terreno da vida e da Igreja. A maior prova de verdadeira e profunda amizade entre Francisco e Clara é o fato de terem construído espiritualidades profundamente originais, mas paralelas. Embora Clara tenha sobrevivido à morte de Francisco por vinte e sete anos, sua influência feminina é muito profunda, mesmo durante a vida de Francisco. Foi uma amiga muito forte para Francisco, principalmente quando ele teve dúvidas quanto à sua vocação; quando esteve doente em São Damião, quando aprofundou seu Cristo interior, graças à amizade dela.

 

A revelação de um Cristo amigo

Um monge do século XII, Elredo de Rievaulx, escreveu sobre a amizade espiritual, dividindo em três diálogos. Para ele o amigo revela Cristo. Cristo revela o amigo. Ele diz mesmo que a amizade começa com Cristo, nEle se conserva e a Ele se dirige, porque Ele é a sua meta e o seu ápice, o seu princípio e o seu fim. Para ele, na amizade, nós somos três: os dois amigos e Jesus Cristo.

Clara viu o Cristo amigo em todas as irmãs com quem conviveu, e nas que estavam distantes, como Inês de Praga, tratando-as com solicitude, cuidado, paciência e dedicação

Como se trata o Cristo amigo

Para que haja uma amizade verdadeira é preciso que:

  • O Cristo esteja presente, como ideal que quebra a simples dualidade entre amigos e lhes dá outra dimensão: eles se unem pelo Cristo interior que cada um revela. A amizade não é a dois, é a quatro: você, eu, o Cristo que está em você, o Cristo que está em mim.
  • Se o primeiro ponto for verdadeiro, os dois amigos precisam ter a capacidade de partilhar tudo que têm de melhor, sem nada reter e sem tentar se apropriar de nada que é do outro. Não partilham coisas, partilham a comunicação do Cristo interior.
  • Se essa partilha existir, os dois terão uma imensa capacidade de melhorar um ao outro, de se deixar melhorar um pelo outro. Porque o Cristo interior dos dois vai sendo descoberto e plenificado.
  • Isto é uma pedra de toque, os dois terão ampla capacidade de se corrigir, de se criticar, de aceitar críticas e correções. Porque estão querendo comunicar um Cristo que não está apenas dentro de cada um deles mas vai sendo descoberto fora pela colaboração dos dois.
  • Uma verdadeira amizade não se fecha entre os dois, ainda que possa alcançar entre eles níveis inauditos. Uma verdadeira amizade sempre é aberta para terceiros.

O que mais se opõe a uma amizade verdadeira não é a inimizade, é a “amizade particular”, marcada por esses pontos:

  1. a necessidade de possuir e a incapacidade de partilhar
  2. os ciúmes
  3. o fechamento para os outros;
  4. o envolvimento sexual

As pessoas extrovertidas, geralmente têm mais amizades, porém não se preocupam com sua profundidade. Já as introvertidas têm menos amizades, mas o importante, para elas é a profundidade.

Todo o fundamento da amizade está na revelação bíblica de que Deus é amor. Ter amigos e ser amigo é um dos jeitos de viver o Deus-amor, de descobri-lo, de crescer nele.

A amizade não é um entretenimento, um passatempo. É um caminho que as pessoas fazem juntas. Caminho de transformação e individuação para ir revelando a plenitude da pessoa. O dom da amizade acontece quando somos admitidos à presença do Cristo interior de outras pessoas e quando acolhemos alguém em nosso Cristo interior.

 

Para você começar a pôr em prática

  • Reavalie todas as amizades que já passaram por sua vida. Que é que elas trouxeram para você? E o que é que elas levaram de você?
  • Procure ter um coração amigo e abra-se para muitas amizades. Todos precisam da amizade e todos precisam de Deus. A gente não planeja amizades. Mas fica às ordens.
  • Prepare-se para uma grande amizade. É um dom que pode chegar a qualquer momento para transformar nossa vida em plenitude. Mas trate de ir cultivando com carinho todas as amizades que têm.

 

Santa Clara e o seguimento do Cristo Glorioso

Pouco tempo depois de ter convidado as irmãs a louvarem a Deus por ter encontrado Cristo na Eucaristia e no Papa, Clara, que estava no fim da vida, teve a graça de ver Jesus chegando, e até perguntou a uma irmã: “Você está vendo, minha filha, o Rei da glória que eu estou vendo? (LSC 46)”.

Ela reconheceu o Rei da Glória, o Cristo dos tempos sem fim, porque sempre soubera enxergá-lo nas realidades concretas da Igreja. Ela amou o Cristo visível na Igreja e a Igreja como sacramento visível. Todos nós precisamos saber onde está o Povo de Deus, para poder segui-lo. Apesar da sua firmeza, que certamente soube enxergar as falhas da Igreja pecadora, Clara foi fiel à Igreja Romana..

 

Jesus Cristo é visível no seu Povo

Desde o princípio, Clara se colocou e a sua Ordem junto com a Igreja. A Igreja era o fundamento para receber cada uma das irmãs na Ordem. Sua Ordem tinha que ser dirigida com firmeza de acordo com a Igreja Romana.

E foi a esse Jesus Cristo que ela recomendou suas filhas quando chegou ao fim da vida. Foi na autoridade da Igreja que ela confiou para defender o seu maior tesouro: o seguimento do Cristo Pobre, ou o “Privilégio da Pobreza”

 

Povo de Deus, santo e pecador

Clara sabia ver que o Rei da Glória estava no meio das trevas. Que, neste tempo de peregrinação, nós o vemos manchado de imperfeições. Quanto mais nítida a visão, mais se enxerga a falha. Quem tem medo foge da luz. Quem é da luz, chega mais perto.

Em momentos difíceis ela soube mostrar a luz que tinha recebido para se defender das trevas que estavam ofuscando até quem tinha autoridade. Nós não podemos aceitar os pecados do povo de Deus, mas não nos devemos separar dele, porque ele é o Cristo visível. Quem ama a Deus que não vê, tem que ser capaz de amar os seus irmãos que vê, mesmo que eles sejam pecadores. E a Igreja universal pode levar a luz a todas as trevas, porque une seu povo libertador ao Cristo Libertador.

 

O Rei das sombras.

Assim como nós temos zonas de sombras em nossa interioridade, porque precisamos fazer opções, também a Igreja, Corpo místico de Cristo, tem as suas sombras. Através dos séculos houve muitas possibilidades de caminhos que precisaram ser fechadas ou até foram fechadas por descuido. Muitas pessoas foram ou se sentiram rejeitadas, postas de lado.

Não nos esqueçamos que o próprio Rei da Glória, também é o Rei das Sombras. Cristo é a cabeça de todo o seu corpo. O mal deve ir sendo vencido mas nada do que é bom, nenhum dos filhos de Deus deve ser perdido a não ser por sua livre opção pessoal.

A glória tem que ir recolhendo todas as partículas de luz, mesmo as que estão na penumbra. O que em determinada circunstância foi visto como trevas, em outra pode ser descoberto como luz. É um papel da sabedoria feminina em que Clara foi mestra: saber devolver à luz tudo que possa ter sido eventualmente sepultado nas sombras. Membros do Rei da Glória, é missão nossa resgatar a sombra.

 

O Rei da Glória

Clara vive a antevisão e o antegozo do reino da glória em tudo e essa verdade transborda constantemente em seus escritos.

Um dia, veremos o Rei da glória totalmente livre do mal, se estivermos conseguindo ver progressivamente essa liberdade agora. Isso é contemplar. Santa Clara viu sempre por que contemplou “o espelho da eternidade, o esplendor da glória, a figura da substância divina”. Quem não está acostumado a ver o Rei da Glória, não enxerga o Cristo no pecador e nem no pobre.

Temos que ter a capacidade de enxergar o Rei da Glória em nós mesmos e em todas as pessoas que estão caminhando hoje com a Igreja peregrina. Com todas as suas dores, com todas as suas alegrias e com todas as suas esperanças.

 

Colocando em prática

  • Nós somos responsáveis por fazer com que as pessoas enxerguem Jesus Cristo neste mundo.
  • Precisamos aprender a conviver com o erro e ajudar a eliminá-los, não nos afastando daqueles que vemos cometendo erros.
  • Conviver desde agora com o Rei da Glória, no meio de um mundo de contrastes é uma dimensão de vida.

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