Maria Conceição Messias
Fraternidade Imaculada Conceição
Engenho de Dentro – Rio de Janeiro -RJ
O mês de junho, no calendário litúrgico da Igreja, é profundamente marcado pela memória de grandes santos, cujas vidas iluminam o caminho da fé cristã. Entre eles, destacam-se Santo Antônio (13 de junho), São João Batista (24 de junho), São Pedro e São Paulo (29 de junho). Cada um, à sua maneira, revela aspectos essenciais da missão da Igreja. João Batista é uma das figuras mais importantes de toda a Sagrada Escritura. Ele é o último dos profetas do Antigo Testamento e, ao mesmo tempo, aquele que inaugura o Novo, pois prepara diretamente o caminho para Jesus Cristo. A Igreja celebra a natividade de apenas três figuras: Jesus Cristo (25 de dezembro), Maria Santíssima (8 de setembro) e João Batista (24 de junho). Esse fato, por si só, revela a importância única de João. A celebração está ligada à sua santificação ainda no ventre materno. Quando Maria visita Isabel, o Evangelho relata: “Ora, quando Isabel ouviu a saudação de Maria a criança lhe estremeceu no ventre” (Lc 1,41). A data de 24 de junho está diretamente relacionada ao nascimento de Jesus. Segundo o Evangelho de Lucas, João Batista nasceu cerca de seis meses antes de Cristo (cf. Lc 1,26.36). Assim, se a Igreja celebra o nascimento de Jesus em 25 de dezembro, fixa-se simbolicamente o nascimento de João seis meses antes. Há também um importante simbolismo. O nascimento de João Batista ocorre próximo ao solstício de verão no hemisfério norte (quando os dias começam a crescer). Já o nascimento de Cristo ocorre próximo ao solstício de inverno (quando os dias começam a diminuir). Isso expressa perfeitamente a frase do próprio João: “É necessário que Ele cresça e eu diminua” (Jo 3,30).
Um dos mistérios mais belos da vida de São Francisco é o de ter recebido o nome no batismo, João, e o nome pelo qual o mundo o conheceu, Francisco, o Deserto do Jordão e o Monte Alverne, revelam a continuidade da ação divina na nossa história. João Batista inaugura o chamado à conversão radical; Francisco o encarna, na história, tornando-se expressão viva da conformação a Cristo. João Batista, o profeta do deserto, e Francisco de Assis, o Poverello, se entrelaçam como profetas da ruptura e da conversão.
Na tradição bíblica, o nome não é um simples identificador, mas expressa a identidade e a missão da pessoa diante de Deus. Assim, o nome João revela, desde sua raiz, um Deus que age com misericórdia, fidelidade e graça para com seu povo. Essa dimensão aparece claramente no episódio do nascimento de João Batista: “[…] ao qual porás o nome de João” (Lc 1,13) O anúncio do anjo a Zacarias indica que o nome não é escolhido pela família, mas determinado por Deus, revelando que a própria existência de João é um sinal da graça divina. Isso se confirma quando Zacarias escreve: “Seu nome é João” (Lc 1,63). Neste momento, sua fala é restaurada, simbolizando que reconhecer a ação misericordiosa de Deus abre novamente a possibilidade da palavra, da profecia e da vida.
Quando Francisco nasceu, em 1182, sua mãe, Pica, deu-lhe o nome de João (Giovanni), no Batismo (cf 2Cel I,3). Assim como João Batista é nomeado por desígnio divino (Lc 1,63), também Francisco, tem o nome que representa sua missão. Assim como o João Batista foi a voz que clamou no deserto, Francisco seria a voz que clamaria no deserto da indiferença medieval. Celano apresenta Francisco como figura evangélica viva “Pois não fora um ouvinte surdo do Evangelho, mas, confiando o que ouvira à [sua] memória, cuidava de cumprir tudo à letra diligentemente” (1Cel, I, 22), cuja existência se torna testemunho radical da conversão. “Quem é, pois, o servo fiel e prudente que o Senhor constituiu […]? Em verdade vos digo ele o constituirá sobre todos os seus bens” (Mt 24,45; 47)
Ao retornar da França, seu pai, Pietro di Bernardoni, mudou seu nome para Francisco. “Assim, o nome dado pela mãe por inspiração divina não foi suprimido, mas o nome imposto pelo pai serviu para designar o novo estilo de vida que ele levaria, como se Deus quisesse mostrar que ele seria um novo mensageiro para o mundo inteiro.” (LM I, 1). A conversão de Francisco será, portanto, um processo de reconciliação entre sua identidade profunda (Giovanni) e sua existência histórica: “[…]para que o amigo de Cristo conhecesse de antemão que deveria transformar-se todo na semelhança de Cristo crucificado […]” (LM XIII, 3).

João Batista surge como uma figura austera, enraizada na tradição profética de Israel, representando o limite entre a Antiga e a Nova Aliança. Sua missão é a preparação do caminho do Senhor através da pregação da conversão e de um despojamento radical. Ele é o profeta da espera que não aponta para si, mas para Cristo. Francisco de Assis percorre um caminho que é como um espelho de João Batista, mas em uma realidade de renovação da Igreja. Nascido na riqueza, sua conversão o levou ao despojamento total e à identificação com Cristo pobre. Francisco buscava a solidão para purificar sua percepção e aprender corretamente a Cristo. A “pobreza evangélica” é a participação na própria pobreza de Cristo. A relação entre João Batista e Francisco de Assis se aprofunda na experiência do deserto.
O deserto é o lugar da prova e do despojamento absoluto. Francisco fez um estado de alma no seu deserto, os buracos e fendas das rochas em Assis ou no isolamento do Alverne. “Sempre procurava um lugar escondido (cf Mt 6,4) em que pudesse unir a seu Deus não só o espírito, mas também cada membro, quando era subitamente agraciado em público pela visita do senhor (cf Lc 1,68) para não estar sem sela fazia do manto uma pequena cela […]” (2Cel LXI, 94). Para ambos, a solidão não era um fim, mas o palco para o encontro com o Amado.
Francisco buscou no Monte Alverne o isolamento necessário para a união final com Deus. João prepara o caminho; Francisco percorre esse caminho. Ambos testemunham a verdade com a própria vida. João é o deserto que anuncia, Francisco é o Alverne que acolhe. No Alverne, o “deserto” de João torna-se a “montanha” da conformidade com Cristo, onde Francisco recebe os estigmas, o sinal da configuração total a Cristo crucificado.
Francisco, nascido Giovanni, manifesta que a graça precede, acompanha e transforma a
existência humana. Sua vida é prova de que o Evangelho continua a encarnar-se na história. “Tornai-vos praticantes da Palavra” (Tg 1,22).
A trajetória que une o Deserto ao Monte Alverne revela que o caminho para o divino exige, invariavelmente, um despojamento. João clama e Francisco canta; ambos apontam para Cristo como o centro da história. A mensagem que permanece é que o Evangelho não é somente um texto, mas uma vida a ser encarnada. Seja por João ou por Francisco, a profecia começa na carne e se manifesta no testemunho. Hoje, os chamados permanecem atuais: “Preparai o caminho do Senhor” e “Vai e reconstrói a minha Igreja”.

O “Deserto e o Alverne”, ganham nova importância no Ano Jubilar Franciscano de 2026. Entendido como um tempo de graça e renovação da Igreja, o jubileu convida a Igreja a reencontrar a radicalidade evangélica vivida na pobreza e na paz. Como Igreja, este tempo jubilar nos convoca a: retornar à essência do Evangelho, promover a justiça social e o cuidado com a criação e testemunhar a paz em um mundo tão dividido. Assim como João preparou a vinda pública de Jesus, Francisco renovou o Evangelho para um mundo que o havia esquecido.
O dia da celebração da natividade de João Batista e a Regra da OFS também estão em conexão. A promulgação da Regra da Ordem Franciscana Secular (OFS) pelo Papa Paulo VI, em 24 de junho de 1978 acrescenta uma reflexão sobre o carisma franciscano e a missão profética de João Batista. Assim como João Batista preparou os caminhos do Senhor no Deserto, a Regra convoca os franciscanos seculares para serem vozes que clamam no meio do mundo, promovendo a conversão contínua, a paz e a justiça social sob a luz do Evangelho. A Regra é um compromisso de “passar do Evangelho à vida e da vida ao Evangelho”, orientando as vidas dos franciscanos e franciscanas para que sejam santificadas pelo espírito de Assis e à semelhança do Batista, sendo presença de Cristo nas realidades temporais e na fraternidade universal.
O jubileu de 2026 propõe que cada cristão assuma essa identidade: somos “Joãos” pela graça do batismo, mas chamados a ser “Franciscos” na forma como comunicamos essa graça ao mundo.

Referências bibliográficas
BÍBLIA. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.
CELANO, Tomás de. Vida Primeira de São Francisco de Assis. In:Fontes Franciscanas. Petrópolis: Vozes, 2014.
CELANO, Tomás de. Vida Segunda de São Francisco de Assis. In:Fontes Franciscanas. Petrópolis: Vozes, 2014.
BOAVENTURA. Legenda Maior. In: FONTES FRANCISCANAS. Petrópolis: Vozes, 2004.
In:Fontes Franciscanas. Petrópolis: Vozes, 2014